terça-feira, 31 de julho de 2018
mãe
quinta-feira, 25 de maio de 2017
You
Depressão pode tirar tudo de você. Ela vai distorcer sua realidade, sua auto estima. Ela vai ser a voz que te diz todas as coisas mais horríveis, ela vai te manter acordada e vai te afastar das pessoas que você ama. Você não merece ser amada. Você não é boa o suficiente. Você não consegue fazer as coisas. Para que tentar se nem vale a pena.
Eu sei que você ouve as mesmas coisas que eu 24 horas . Eu sei que você levanta, prepara o café e pensa se vale a pena existir hoje. É nessas horas que eu escolhia uma entre as três opções.
1. Ficar sendo criança na cama e não levantar;
2. Preparar algo de comer;
3. Te contar algo incrível numa tentativa de te empolgar.
Eu sinto falta dessas rotinas e certezas. Sinto falta de saber que você vai estar lá para rebater meus pensamentos e não deixar eu fazer decisões estúpidas. Mas sinto mais falta ainda de como você me conhece tanto e ainda assim me admira.
Você sabe, depressão não deixa você pensar bem de si mesmo. É aquele peso em cima de você que pode definir boa parte dos seus dias. Então eu não acho que eu mereço admiração alguma, mas eu sinto isso de você.
Se tem algum arrependimento é nunca ter conseguido passar para você o quanto eu sinto o mesmo.
A vida foi desnecessariamente cruel com você mas mesmo assim você acredita em um mundo bom. Você acredita nas pessoas (mesmo não gostando delas) e no potencial humano. Você vê o raciocínio por trás das coisas, está sempre se esforçando e buscando ser a pessoa que você quer ser . Claro que tem dias que você está sem saco para tentar mas você ainda está lá e isso conta tanto. Você é amoroso, carinhoso e vive me dando surpresas aleatórias. Você pensa em mim nas coisas mais básicas e cuida da minha sanidade.
Seu gosto para séries é impecavel; você sente música ao invés de ouvir e sempre tenta entender as coisas ao invés de julgar. Você não compreende muito o mundo não, ele não faz sentido para ti. Mas você aceita viver nele e jogar com ele.
Eu te amo. Mas mais que isso eu te admiro. Talvez sejam coisas variantes para mim. Eu só queria que você soubesse que nenhuma das duas vai sumir.
segunda-feira, 8 de maio de 2017
EX
Ela me lembrava da escolha que fiz para ficar com ela, mas eu não conseguia me arrepender. Ela aguentou meu silêncio, me fazendo companhia enquanto eu não tinha como expressar o que estava passando por mim. Quando minhas manhãs de sábado passaram a ser ocupadas pelo psicologo , eu disse como era difícil, deixar ela em minha cama e partir. Sábado seguinte, acordei com cheiro de tapioca, música nordestina e garantia que ela ia estar ali.
Demorou que ela voltasse para minha vida. É que toda vez que a gente se encontra eu fico meio na dúvida do que dizer e meu coração bate muito rápido quando eu imagino as possibilidades que ainda podem se cumprir. Eu não sei se é de medo ou de ansiedade, eu espero nunca descobrir.
A gente nunca teve nada haver. Ela não gosta de ficção científica e ama as Kardashians e reality shows. A mesma personalidade impulsiva e ansiosa minha e a falta de fé na humanidade. Eu a amei sem notar. Eu mandei aúdio as 3 da manhã claramente chapada para te dar uma bronca, por ter entrado na minha vida e ter se tornado importante tão rápido, sem eu nem ter conseguido notar. Ela é o motivo de eu ter me aberto para os meus pais. Ela é a minha coragem e a minha sustentação Mas quando a gente estava juntas, ela não era nenhuma dessas coisas.
Eu tinha certeza que a gente nunca mais se falaria. Mas é ela a primeira pessoa que falo na maioria dos dias e a última também. Eu me esforcei muito para você sair de perto, apesar de todas as merdas que eu fiz. Foi muito egoísta, mas eu gosto tanto da sua constante na minha vida.
Fui eu que disse adeus, porque eu não conseguia mais me esforçar. Eu estava cansada de te machucar tanto e me sentir incapaz. Eu acredito e ele sabe, que viver uma vida que não é a que você quer é morrer a cada segundo. Quando nossos ventos pararam de seguir a mesma direção, eu já sabia que ia acabar mas cada conversa dilacera a alma, porque eu queria, mas queria tanto conseguir mudar
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Trigger without warning
Eu tinha 6 anos quando eu entendi que eu não era prioridade. Quando você tem um irmão suicida é isso que acontece.
Das 3 tentativas, eu lembro bem de 2, a primeira é meio difusa. Mas eu lembro melhor ainda de todos os dias que se seguiram a isso.
Eu tinha 6 anos e tinha que entender que okay, eu queria algo. Mas meu irmão queria outra coisa e ele talvez não estivesse aqui pela manhã.
Talvez ele quisesse pegar meu dinheiro sem avisar, talvez ele quisesse me acordar, talvez ele quisesse que meu aniversário fosse um churrasco. Talvez ele quisesse pegar um livro meu e ele não precisa realmente de autorização pra isso, precisa? Ah é importante pra você? Mas não faz caso com isso, você nem sabe se vai ter seu irmão. Você não pode ser assim egoísta. Isso nem faz sentido.
Aprendi a não ocupar espaços, a não reclamar, a não ouvir música, não escolher minha comida, não abrir a boca sobre o que eu queria. Aprendi que me dariam forças mas que os caminhos eram solitários e meio fechados mas eu tinha que abrir sozinha.
Não é difícil entender que com o tempo eu passei a desejar que meu pulso estivesse coberto de cicatrizes. Que aqueles remedios entupissem minhas veias porque aí sim minha voz teria valor. Ou talvez eu morresse e qual seria a grande diferença? Aí eu não precisaria estar sempre fingindo que está tudo bem e ouvindo: ah ela nem dá trabalho, fica feliz com umas coisas bobas.
Porque eu não fico.
Mas o que adianta reunir a coragem do peito e dizer: Não quero. Quantas vezes passaram por cima de mim? O Julio queria. Julio não fez por mal. Você tem que entender.
Eu não quero na vida adulta ouvir o que eu ouvi quando criança. Eu não quero desejar fortemente estar morrendo também porque não tem nada de bom em estar tentando tanto estar viva. Pelo contrário, tudo fica pior.
Eu sabia que a L. vir aqui seria trigger pra mim. Não sabia te explicar isso mas é tão injusto eu ter que explicar para ser ouvida. Você sabia que eu não queria nem que você cogitasse isso.
Dói pra caralho saber que minha voz não tem valor. Que 20 anos depois eu estou no mesmo patamar. Que eu devia só aceitar e mentir porque o que eu sinto vai ser ignorado em prol de outras pessoas. Dói saber que depois de 10 anos me conhecendo você ia fazer o mesmo machucado em mim.
Isso não é metade do que eu queria te dizer mas eu não quero te dizer tudo que eu estou pensando.
Eu confiei uma vida em você.
Não me arrependo.
Mas você não vai fazer eu me afogar. Eu me recuso a piorar. Sim, vai doer. Sim, tô com a confiança toda quebrada mas eu vou viver. E eu vou ter essas pessoinhas a minha volta que vão me dar suporte.
Porque hoje eu acredito que eu mereço isso. Que eu posso pedir isso.
Mas não de você.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Bêbada
Minha cabeça zomba
Tudo é confuso
A única constante é você
se eu queria te mandar áudio nesse estado?
Queria.
Não irei fazer.
Você também não o faria.
Recuplrocidadade é tudo
E nessa batalha ninguém vence
Eu certamente não te amo
Mas certamente não sou indiferente
Enquanto meu estômago se reviravolta
Eu só penso em te beijar
Sentir todo o calor junto a mim
com ele me casar
Possível não é
Nem para mim e acredito para ti
Não sei se você se interessa
mais do que em mim
Você sabe ou eu espero, entende a sombra que se instala
entre quem você é e mostra
não por causa de reservas e excuses qualquer
é autlpreservação nua e crua
sim, te quero
não, não vou correr atrás de você
sábado, 5 de novembro de 2016
Presa
A observo fixamente. Bela, princesa. Nunca chegará a rainha.. Mesmo assim me delicia
com seu corpo colado ao meu. Beijo-a toda, em especial ao seu pescoço. Aplaco seus
medos, guiando-a. Coloco suas delicadas mãos em meu corpo. Tão delicado quanto o dela e ao mesmo tempo tão menos virginal. Nossas roupas finas de dormir tão logo deixadas de lado. No chão, embaranhadas, elas parecem estar no lugar certo.
ainda assim não enjoativo. Beijo seus pés. Não quero ver sombra de medo em seus olhos
tão límpidos.
brincar com meu corpo. Deixo, é claro. Guio sua mão novamente, mas logo ela não
precisa mais de minha ajuda. Minha putinha nata, uma excelente descoberta.
Não quero esperar mais, junto meu corpo ao dela. Nossos seios duros, um contra o
outro. Uma sensação de prazer se espalha por mim,ela se encontra toda arrepiada.
Beijo-a enquanto desço minha mão pronta a explorar sua intimidade. Calmamente descubro o que lhe dá mais prazer, para depois me atentar a isto. Sei que não posso me manter apenas em seus pontos climax, sei como lhe torturar e aí sim lhe dar mais prazer.
Ouso, levo minha boca até aquele antro de prazer tão neglicenciado por ela. A excito,
quero fazê-la gozar em minha boca. E com um gemido segurado e um grande arranhão em
minhas costas descubro que alcancei meu objetivo.
A penetro com meu dedo neste momento, sem esperar permissão. Sinto sua virgindade
latente, sei que ela é minha. A tomo com uma pressa que não me é devida. Rapidamente
ela me penetra da mesma maneira e quando estamos as duas tão perto do gozo, roço nela.
Uma intimidade só conhecida entre mulheres, meu ponto mais sensível com o seu. Juntas nos excitamos para um orgasmo final, maior e mais longo...Agora só resta a mim desabar sobre seu corpo, cansada, enquanto observo sua face serena,totalmente livre de
preocupações.
O oitavo dia de neve
Contaminara a própria espada. Infeccionado o ferimento não consegue cicatrizar.Isso por si só já seria um problema difícil de contornar nas condiççoes de campanha. Somando-se ao inverno rigoroso, sabiamos que a chance de que ele e todos os outros feridos se recuperassem bem era mínima.
Não os abandonaremos. Raramento o fazemos. Vivos aind apodem ser úteis e mortos, são nossos mortos e devemos encaminhar suas almas aos céus.
Aqueles que perecem em batalha, não podem receber honras. E nem por isso suas almas se perdem. Não vejo tanto sentido em cerimônias gloriosas para aqueles que já não estão entre nós... Contudo, sigo as ordens de meu capitão... Enterro ou cremo os corpos e dou a eles uma última benção. Mesmo tendo certeza que o tempo que perdemos revirando corpos após um dia sanguinário poderia ser usado para restabelecer as forças dos que voltarão a lutar.
Dessa vez não reclamo. Já faz oito dias que estamos sobre o abrigo dessas cavernas. Há oito dias nao para de nevar. Há oito dias nosso trabalho se resume a impedir que a neve adentre nosso esconderijo e nos sepulte aqui dentro. Tudo o que devemos fazer é criar calor, cuidar dos nossos doentes, manter a saúde e sobreviver. Há oito dias não vemos uma batalha.
A ração é escassa, mas nos aguentara por pelo menos mais sete dias. Se todos sobrevivermos... Não acho que isso acontecera. Presumo que poderemos sobreviver por dez, onze dias. Mas, não tenho necessidade nenhuma de provar que meus cálculos estão corretos. Prefiro sair daqui antes se possível.
Observei o ferido que até agora não reclamara. Ele tem sido minha melhor distração por aqui. Esperava ouvir em seus momentos finais uma queixa, um pedido, um desejo de vingança... Qaundo o fedor pútrido começou a sair da ferida aberta, me ofereci para cuidar dele.
Não por pena ou misericórdia, antes o fosse. Simplesmente queria ter certeza que não perderia sua súplica. Todos somos iguais ao morrer. Todos fedemos. Não que isso não aconteça com a maioria ainda em vida.
Durante dois dias acompanhei sua resistência. Sabia que não era daqueles que estavam conosco por obrigação. Ele queria lutar, Queria continuar a servir ao capitão. Mas, não reclamou.
Alias, em pouco mais de quarenta e oito horas a única coisa que disse é que eu deveria arranjar uma maneira de ser mais útil ao regimento do que cuidar dos já condenados. Falou isso sem raiva ou rancor. Realmente queria o melhor para nós como um todo.
Talvez se fosse em outro alistamento a história não fosse assim. A verdade é que é um orgulho poder vestir o uniforme negro com a pequena estampa de dragão rubro. Caleb era um excelente capitão. Sabia o nome de cada um dos membros de suas tropas e notava problemas individuais que os melhores amigos ignorariam. Não havia contendas nesse batalhão.
Apesar de seu jeito tolo e companheiro, qualquer um que já o houvesse visto em uma batalha sabia o quão sanguinário ele era. Seu prazer em guerrar era enorme e nós já eramos conhecidos como o braço direito do rei. Em pouco tempo esperavamos que alguns de nós fossemos escolhidos para integrar sua guarda pessoal e guerreavamos para atingir esse posto.
Não sei se o soldado a minha frente desejava essa honraria. Não sei se ele tinha essa ambição. Sei que estava morrendo como tantos outros. A guerra é injusta. Sempre foi. Matamos e estamos dispostos a morrer por um ideal, contudo não podemos e nem conseguimos esquecer que nos dois lados há homens bons.
Não vivemos um conto. Nossos inimigos não são monstros e sim cidadões comuns. Somente aqueles bitolados são capazes de ver humanos comuns com espadas nas mãos como animais. E com esses eu prefiro evitar travar um combate...
Ele arqueia de dor. Deveriam dar algo que minimize a sensação da morte. Que o faça esquecer essa dor. Nem que seja uma coronhada na cabeça, que pelo menos é uma dor aguda seguida de silêncio eterno... Fiquei ao seu lado a madrugada inteira, o observando. Tentando em algumas horas compreender anos e dor e angústia...
Não consegui. E ele se foi enquanto eu cochilava... Foi sem eu saber o porque dele não reclamar. Foi me deixando uma dúvida eterna. Ele poderia ter sanado. Poderia ter me ensinado a não reclamar na morte como ele e ter o mais perto possível de uma morte honrada. Entretanto, ele preferiu ser um egoísta e guardar sua calma para ele...
É o nono dia nas cavernas. E continua a nevar.
Ensaio sobre a cegueira
Meu ritmo de leitura de férias anda fraco este ano, apesar de poder dizer que os únicos dois livros que eu acabei de ler até agora foram certamente livros úteis. Memórias de minhas putas tristes e Ensaio sobre a cegueira. Mas, este último merece mais destaque. É difícil demais dar uma opinião não spoiler sobre o livro então aviso desde já que o texto abaixo contêm revelações sobre o enredo. Mas, antes quero resumir um pouco do que se trata a história. Um resumo grande que obviamente contêm spoilers, mas tanto spoiler quanto a contra-capa ou o resumo do filme contêm. Recomendo para quem pretende ler o livro que não leia nem o resumo, porque sinceramente eu li sem saber do que se trata e foi muito surpreendente.
Ensaio sobre a cegueira trata do grande mal branco. Uma onda de cegueira que faz com que a vista das pessoas seja encoberta por um "pano" branco. O que surge como uma doença misteriosa que se apresenta repentinamente enquanto um homem está dirigindo se espalha pelas pessoas que tiveram contato com ele e por aí se espalha. E logo estas pessoas são levadas para um antigo manicômio a fim de serem postas em quarentena pelo governo e coordenados pelo exército. Sendo que o medo da contaminação é grande o suficiente de forma que eles não receberão nenhuma ajuda, pouca comida, algum material de limpeza inicialmente, nenhum medicamento, ninguém com olhos para os guiar... Nenhuma ajuda exterior. Mesmo que alguém morra, eles, os novos cegos, deverão enterrá-lo, queimar o próprio lixo... Sem visão e confinados a um local que não conhecem a vida dos primeiros cegos é complicada, mas quando o mal branco se torna um problema global, a loucura parece prestes a se espalhar. E entre os contaminados há um médico oftamologista e com ele, sua esposa. A única pessoa que permanece com a visão dentro do manicômio, como se fosse imune a cegueira que se espalha.
Opinião Spoiler do livro
De meus anos de estudante de humanas aos meus anos de aspirante a jornalista, aprendi inúmeras técnicas de resenha. Aprendi também que prefiro evitar usá-las. Ensaio sobre a cegueira é um livro denso que me pegou de surpresa. A simples curiosidade perante o título e a fama de José Saramago impulsionaram minha leitura em seus primórdios. Todavia, um livro contêm uma história e este eu resolvi encarar sem conhecimento prévio. E de início foi bem interessante, o primeiro cego, do nada, todo o terror do mal branco e logo o aprisionamento e o golpe de mestre da mulher do médico. É fato de que ela narra toda a história e é o eu-lírico que reproduz o que ocorre no "manicômio". A sujeira, os dejetos, toda a porquidão... Não é um conto de fadas, é como de fato a sociedade se comportaria em situações destas. A contaminação crescente, de início nos acostumamos a primeira camarata e aos seus seis personagens de destaque. Todos com seus erros, aflições, pecados, vergonhas ... o medo dos soldados e depois o óbvio surgimento de uma camarata que tenta sobrepujar as outras. Claro que em minha opinião boa parte dos sofrimentos causados pela terceira camarata do lado direito poderiam vir a ser evitados se a mulher do médico tivesse tomado uma decisão antes, mas provavelmente ela não teria como imaginar a situação que os mesmos iriam criar e a presença de uma arma de fogo realmente é capaz de silenciar até aqueles que não a vêem. Da simples entrega dos pertencentes de valor até a óbvia humilhação das mulheres, que certamente é um dos pontos que mais me irritou com a descrição dos tipos que ali viviam e não falo dos malfeitores. O fato é que no momento que os homens deixaram bem claro que as mulheres deveriam se sacrificar, eles também deixam claro que eles não passariam por esta humilhação. Humilhação esta que deveras me chateia, afinal eu possuo um tanto daquela chama feminista que não tolera o jeito como as pessoas - homens e mulheres - pensam do sexo feminino e como parece direito que as mulheres se submetam. Admito que o fato do médico ter se deitado com a mulher de óculos escuros enquanto sua esposa via, me tirou um pouco do sério. Principalmente considerando que o livro não mostra em momento algum que ele tomou a mulher para si, por vergonha na frente de outros. Todavia, não teve problema em se deitar com uma "estranha" quando todos poderiam ouvir. E quando a mulher do médico, munida de força que só a raiva, a vingança e a necessidade de providência podem criar. Refiro-me a simplesmente acabar com a garganta de alguém com uma tesoura e matar outros dois. |Obvio que o fato dela não ter pego o revolver me revoltou bastante, foi idiota, mas as pessoas fazem coisas idiotas. Prefiro não mencionar o incêndio, aquilo foi de sobremaneira idiota pelas proporções catastróficas causadas. Claro, que se não fosse por isto, não haveriam se atrevido a sair. E ao sair do manicômio, o mundo que encontram é genialmente descrito. Todo o horror e a naúsea, o que a humanidade faz quando as formas de organizações antigas não podem mais serem postas. A superação da mulher do médico em sustentar e prover o melhor possível os outros seis, em destaque o velho da venda. Alias, acho interessantíssimo o rádio dele figurar com sua aparição. Mas, a descrição das ruas, dos locais, os cegos vagando, os dejetos, a degeneração, a morte, os animais soltos... E por mais que o livro aparentemente nos presenteie com um final feliz, talvez o melhor final para fins práticos da história fosse que a cegueira permanecesse, que o véu branco continuasse sobre eles. Decerto que a sujeira e putridão existente nas cidades e em breve nos campos, transformaria nosso planeta em um grande caminhão de lixo. Só que como se reorganizar depois de tudo o que passaram e fizeram? Depois de tudo que consideravam antes sujo e indigno? Como se organizar novamente de maneira a limpar a cidade? E os cegos, realmente cegos? Como estes ficam? Será que todos irão querer voltar a suas casas regulares? Será que a inflação voltará a ser controlada e as pessoas que perderam todo seu dinheiro... O que fazer? Não tenho a resposta, certamente será preciso mais do que um par de anos para que tudo retorne a regulariedade e provavelmente o mal branco não alterará em nada as pessoas, porque depois de um tempo, todos esquecem e voltam as suas vidas regulares. Sei também que após a felicidade e extase de voltar a enxergar, todos se voltarão para o estado em que se encontram, como seu mundo se encontram, onde há pessoas mortas em todas as ruas... Um livro bom em seus detalhes, em não representar uma sociedade útopica que teria se mantido organizada, em representar o pior do ser humano. E o desfecho, fosse "bom" ou "ruim", eles vontando a enxergar ou não, permanece como uma incógnita o futuro destes ex-cegos.
Citações
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós"
"Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."
"O mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos."
"Que tendo começado por mandar as mulheres e comido à custa delas como pequenos chulos de bairro, é agora a altura de mandar os homens, se ainda os temos aqui, Explica-te, mas primeiro diz-nos donde és, Da primeira camarata do lado direito, Fala, É muito simples, vamos buscar a comida pelas ossas próprias mãos, Eles têm armas, Que se saiba só tem uma pistola, e os cartuchos não vão durar-lhe para sempre, Com os que têm morrerão alguns de nós, Outros já morreram por menos, Não estou disposto a perder a vida para os que mais fiquem cá a gozar, Também estarás disposto a não comer se alguém vier a perder a vida para que tu comas,perguntou sarcástico o velho da venda preta e o outro não respondeu."
"Não irão apenas os homens, irão também as mulheres, voltaremos ao lugar onde nos humilharam para que da humilhação nada fique, para que possamos libertar-nos dela da mesma maneira que cuspimos o que nos lançaram a boca." - Mulher do médico
2016
Obviamente estou falando da escolha do Rio, Rio 2016. Eu tenho algumas contradições sobre o assunto, inevitavelmente. Primeiramente por minha tendência patriótica e um pouco nacionalista. Porque de certa forma eu me sinto orgulhosa de ver o Rio atingindo tal marca e chamando atenção internacionalmente por algo mais do que Copacabana e mulher pelada.
Segundo, é a minha cidade sediando os primeiros jogos olímpicos na América Latina. Copa do Mundo? A Copa é a cara do Brasil, nada mais esperado ser aqui. Era óbvio que um dia ela ia voltar para cá. Não esperava as Olimpíadas. Não acho que temos ou teremos condições de lidar com a infra-estrutura necessária. Não acho que vai melhorar alguma coisa para os cariocas. Nem um pouco.
2016 vai ser um caos urbano. Alias, até 2016 nós iremos entrar em um bando de obras e iremos ver dinheiro público ser gasto e desviado das mais diversas formas. É como dar um alvará para os corruptos. Diversas obras para desviar dinheiro. Muito legal. Enquanto isto a população irá continuar carente. Iremos sediar não só um, mas dois mega-eventos. E iremos mostrar a face mais bonita do Rio. De forma que os "gringos" vão olhar e achar que tudo aqui é perfeito, assim como tantos fazem ao ver as "Ouropa" de longe. Iremos enviar as milícias para algumas favelas. Em outras o governo irá pagar para que não haja revolta. É assim que funciona.
Ao mesmo tempo sei obviamente que estas obras, pelo menos parte delas, realmente serão feitas. Não há outra escolha. Precisamos no mínimo de mais 7 lugares para competições e lugares fixos. Estas obras gerarão emprego. Bem ou mal, a Copa do Mundo mais os Jogos Olímpicos geraram empregos mesmo que estes sejam provisórios e de baixa renda.
Assim como todos os projetos sociais envolvendo esporte serão valorizados. Não acho que iremos fazer como a China e criar em 7 anos adolescentes mega-esportistas, mas certamente os melhores de cada grupo passarão por um treinamento árduo a partir de agora. Como cidade-sede estamos inscritos em todas as competições ou ao menos 70%. Vamos criar atletas em áreas que não temos histórico nenhum. É a chance do Brasil ganhar mais medalhas. Quem sabe a tão esperada medalha de ouro no futebol? A falta dela já está se tornando irônica demais.
Nem lembro mais os outros pontos que queria discursar e sinceramente. Vou voltar para os meus livros aqui já que estou condenada a ficar em casa durante um tempo. See ya
Violino
Estes dias eu estava tentando fazer meu top 20 de livros. E ao colocar Anne Rice, constatei que isto não é verdade. Meu primeiro contato com ela realmente veio por intermédio de Entrevista com o vampiro. Sim, eu fiquei encantada com o livro. Contudo admito que boa parte deste encantamento tem a ver com a história e não com a maneira que ela escreve. É difícil eu considerar que um autor escreve realmente bem. E Entrevista com o Vampiro ainda soava infantil. Ainda em 2006, resolvi dar uma chance para Chore para os céus. Já o considerei melhor. Não terminei o livro, pois o havia pego na biblioteca aqui da Ilha e tive de devolvê-lo e havia uma fila atrás dele. Não voltei lá para procurá-lo depois disto. E atrás de outro livro da Anne Rice, Violino chegou em minhas mãos. "Delírios fantasias, horrores e terríveis verdades". O livro logo me atraiu. E o jeito do Stephan piorou tudo.O fato é que até onde eu me lembro, violino foi o segundo livro que eu li que me fez chorar. O primeiro, Meu pé de laranja lima, e considerando a época que eu li Violino, não vejo tantos motivos para ter me tocado tanto. E entre suas 286 pág., uma passagem específica me abalou. Por motivos desconhecidos digo logo. E hoje a transcrevo aqui:
"E o pensamento era o seguinte:
Você não pode negar os erros. Não pode negar o sangue que está em suas mãos ou em sua consciência! Não pode negar que a vida está cheia de sangue, que a dor é sangue, que o erro é sangue.
Mas, há sangues e sangues.
Só um certo sangue vem das feridas que infligimos a nós mesmos e uns aos outros. Flui brilhante e acusador, ameaça levar consigo a própria vida o ferido este sangue... Como cintila, como se comemora este sangue sagrado, sangue que foi sangue de Nosso Senhor, que foi o sangue dos mártires, o sangue no rosto de Roz e o sangue em minhas mãos (o sangue dos erros)
Mas, há outro sangue.
Há o sangue que flui do útero de uma mulher. E que não ´sinal da morte, mas a marca de uma fonte grande e fértil. Um rio de sangue que pode eventualmente formar de sua substância seres humanos completos, é sangue vivo, sangue inocente..."
Minha passagem favorita do livro, apesar de que na época eu já possuia uma segunda favorita que hoje em dia é a primeira:
" A saudade é sóbria. A saudade não grita. A saudade só vem muito tempo depois do horror ante a visão do túmulo, do horror na cabeceira da cama. A saudade é sóbria e é impassível"
Tentada a fazer um post sobre cada um dos meus livros favoritos, mas impossível se resumir ao top 20
CEFET
Estou a segurar quaisquer eventuais lágrimas por hoje na tentativa de guardá-las para amanhã. Por mais que o dia de hoje esteja pedindo por elas. Clamando, para ser mais exato. Um dia marcado para ser nostalgico, apesar de não tanto quanto amanhã.
Dias fadados a serem nostálgicos. O CEFET foi e será, em minhas memórias ao menos, o local em que me senti mais a vontade. Onde eu encontrei pessoas com quem eu gostava de conversar sem me enfadar, onde eu não era a única a conhecer animes, mangás, rpgs em geral... Um local onde eu passaria até mais de 12 horas, fora o tempo em casa. Dedicação exclusiva que eu aceitei dar sem reclamar. E eu lembro de tantos detalhes, tantas conversas, algumas brigas, problemas sem dúvida, confusão mental, acordar cedo, trânsito... E apesar de tudo, me sentir feliz por estar indo ao colégio. Não irei mentir dizendo que isto foi verdade todos os dias, houve uns que cheguei lá arrastada, de mal humor e que simplesmente me isolei. Acontece. O CEFET continua sendo meu "lugar ao sol". As pessoas que ali me amiguei se tornaram especiais cada uma de uma forma, é clichê dizer, mas acho que todas elas de alguma forma me ensinaram algo. Mesmo que fosse como não fazer alguma coisa ^^Nos outros colégios em que estudei, eu tive de aprender a apreciar o local. Com o CEFET foi o contrário. Lembro ainda do dia da matrícula, eu passando pelo bosque. Aquele local é a minha primeira imagem do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca. Não era o recanto em que eu me encontrava boa parte do tempo. Entretanto, era o local que eu gostava de observar. Todas as nuances de cores, os sons, os gatinhos - que estão ficando mais educados ultimamente - Tudo tão aconchegante que eu poderia jurar que não estava mais no colégio.A sensação de pertencer, de estar em casa, vai passar, eu sei. Poucos anos se passarão e eu voltarei lá e não reconhecerei aquele lugar como um lar. Por ora, eu quero aproveitar estes últimos dias, últimos dos últimos. Tentando me lembrar de tudo e ainda assim segurando o choro.Contudo, é difícil ante a visão de coisas simples e ainda assim importantíssimas. Os armários rabiscados, as pixações aleatórias, recados em livros, apresentações de trabalhos e salas de aula. D326, 1MMED 2007, a melhor turma. Lembro da semana "perfeita" minha e da Alana, com a visita técnica no centro, comer na fonte da Veiga, desconfio, mau-mau, vendo Quebrando a Banca por 2 reais no cinema, vendo Ultimato Bourne com uma galera que não viu os outros 2 filmes (aliás, só eu vi a trilogia, mas ok) e brigadeiro. Brigadeiro de Lanuxa. A semana mais especial do primeiro ano , sem dúvida.Lembro bem do dia do trote. E é engraçado notar que os calouros daquele dia, meus companheiros de trote, foram meus verdadeiros companheiros de CEFET. Claro que a eles se somam algumas poucas pessoas. Mas, a Lana, Bia, Marlon e Tâmara, que estiveram presentes naquele início marcaram o primórdio. Somando-se a eles minha gêmula, Verton e Tóia, acho que temos o octeto de turismo. Um povo que fez minhas manhãs mais agradavéis. Amanda com seu jeito Adriana então...São pessoas que me fizeram rir, sentir raiva, pensar, me preocupar... Eu realmente não deveria citar nomes, mas estes foram os que eu mais me importei. São estas as pessoas que fizeram parte de toda a minha estadia no CEFET.E nesta reta final, só queria virar para um calouro e falar claramente para ele que estes serão os melhores 3 anos da vida deles. Que eles devem ser inconsequentes e se preocupar menos e aproveitar ao maxímo. E não passarem pelo CEFET como se estivessem em um colégio comum. Nunca um local pode fazer tanta diferença em minha vida. E eu sei que tomei a decisão correta em voltar um ano. Ali muito aprendi, muito aproveitei, tive de me moldar para notar que não deveria tê-lo feito. E nestes últimos meses, tomei o caminho certo. Só me arrependo de não haver mostrado mais quem eu era para todos, de aparentar ser tão feliz, e meu único consolo é que as pessoas que me importam mesmo, nunca se enganaram. Não totalmente... E como já disse, nos últimos meses, fui ainda mais feliz naquele colégio, por aos poucos conseguir dizer um pouquinho quem eu sou. Não totalmente, eu sei. Mas, mais do que já mostrei.Sentirei saudades. Por cada vão momento, cada aprendizado, cada loucura, cada almoço, cada trabalho bizarro e legal. Amo, amo muito este local. E agradeço por ter estado lá. Saudades...
Desesperançado
O corte vertical possuia uma extensão mínima, se iniciava perto do final do osso externo até a altura do baço. A profundidade do corte mostrava que quem o fez estava de posse de uma lâmina afiada e que possuia o mínimo de perícia. O corte era limpo, não sangrava demasiadamente, apesar de desconfiar de uma perfuração em algum dos órgãos. Provavelmente foi feita enquanto estava desacordado.
O que não era capaz de entender era o porque de tal ação. Era um sujeito pacato, entregou seus pertences sem pestanejar.Ele se recordava apenas do soco forte e dos homens o cercando. Não possuia muitos bens, apenas uns briquebraques sem valor comercial.
O porque de tal violência o encucava. Tudo o que tinha em mãos já pertencia a eles... Por que o corte?
O medo o assombrou momentaneamente. Medo de uma sociedade que já não mais respeitava ninguem. De uma sociedade que matava os inocentes sem justificativas, por mais bobas que estas sejam. Sente neste momento a dor que apenas o estado lastimável que o mundo se encontra pode causar.
A dor da inatividade, da fraqueza, de saber que se é inútil tentar, de como é insuportável viver em um mundo tão obscuro e tão vazio. Poderiam dizer a ele, alguém poderia sussurrar em seu ouvido que a humanidade não é toda assim. Não obstante, ele não é um tolo. Ele conhece a realidade.
Se apercebe que correr não é mais importante. Considerando a extensão de seu corte, se estivessem atrás dele já o teriam alcançado. Agora ele foge da dor. Busca com os olhos um abrigo, qualquer local em que possa descansar sem correr o risco de se aproveitarem de sua fragilidade. Acha difícil que um local deste exista, mas ele busca. Com a falsa esperança dos tolos.
"Aproveitador"
"Usurpador"
"Acha que eu sou trouxa?"
"Deixar você descansando? Por quanto?"
As reações diversas mostram a ele que sem dinheiro você é outra pessoa. A bondade das pessoas é constantemente proporcional ao peso que tens nos bolsos e esta é a tola verdade. Cambaleando, após sair do último estabelecimento, ele se encosta a uma quina. Sente sua mente falhar. Seus pensamentos não mais soam lógicos. Tudo o que sente depois é o concreto frio.
Texto mal escrito e antigo. Postado apenas para eu parar de pensar nele.
Dia 6 Segurança
A verdade é que eu não consigo imaginar outro lugar com uma sensação de segurança tão grande quanto aqui, deitada na minha cama. Daqui eu consigo ver a porta e a janela. No caso entre as frestas da janela. Consigo ver a mesa acompanhada da antiga cadeira de madeira que tem quatro pés pintados de cores diferentes. Não há um armário, o que há são 2 longas tábuas servindo de prateleira uma embaixo da outra e há livros pelo chão. Minha bolsa está sempre ao pé da cama, sempre acessível e eu já planejei um milhão de rotas de fuga estúpidas, mas que me dão uma segurança enorme ao saber que não estou trancada. Apesar de que pular do segundo andar é sempre uma ideia estúpida.
O quarto é lilás. Foi pintado em outra era, para outra garota, mas ainda dá para ver que a cor era lilás. Existem diversas marcas, eu sei que causei a maioria delas e só eu entendo o que elas causam em mim. E apesar de todas as particularidades, de ser aqui que todas minhas coisas ficam, aqui onde eu não tenho que dormir abraçada com a minha bolsa, onde eu posso dormir de pijama, eu sinto falta do esconderijo de ontem. Aquilo ali tem tanto potencial. E só a desvantagem de ser tão perto da cidade.
Claro, no momento é impossível. Eu tenho que fazer meus turnos todos os dias e aqui fica bem mais perto e existe ainda as crianças para olhar. Mas, esse é meu último ano antes de pedir a transferência e parece tão esquisito sonhar com esse tipo de independência. Não é tempo para sonhos, ninguém fala disso. Não é como se eu fosse para um apartamento legal, arranjar um emprego, ir para festas a noite e conhecer pessoas.
É só que eu vou poder ir para um lugar onde posso ver as estrelas praticamente toda noite e eu não tenho que falar com ninguém. Isso já me parece bom o suficiente. Ou é apenas minha mente tentando arranjar uma distração da realidade.
Quando batem na porta, eu me levanto rápido. O velho finalmente chegou. Pego a minha bolsa e abro a porta. Gary. "Ele está no escritório, quer falar contigo."
"Estou ocupada". Não, não estou. Mas, vale a pena ver a cara de choque do Gary. Sempre tão bom soldado, obedecendo a tudo que ele nem consegue ver que eu já estou indo em direção ao escritório, só batendo a porta atrás de mim.
Elas fecham automaticamente. As portas. Só bater, não precisa passar trinco. Quando eu lembro da primeira noite que eu passei na casa anos e anos atrás, eu lembro da segurança que isso ofereceu. Eu lembro que eu estava com tanto medo de tudo, medo do velho que eu achava que ele tinha me resgatado para fazer algo ainda pior comigo. Mesmo sendo difícil imaginar o que seria pior do que ser vendida. Mas, eu lembro do alívio de quando ele me deixou no quarto e me mostrou que só eu podia abrir a porta e finalmente eu pude respirar tranquilamente.
Fico calada, isso ao menos eu sei fazer. Quando nenhum comentário adicional vem, eu espero. Quando passa quase 10 minutos de silêncio, eu sinto minha resolução começar a se abater.
Como um relógio marcando o tempo, ele finalmente fecha o caderno e olha para mim. Dá para ver o quanto ele está exausto, os vincos na testa estão mais profundos do que o normal e essas olheiras não estavam desse tamanho da última vez que eu notei.
"O que houve ontem?"
Me ajeito na cadeira antes de começar a história. "Correu tudo bem, eles estavam no local marcado. Três deles. Cheguei mais cedo, deixei o dinheiro escondido como você mandou. Eles entregaram o pacote, eu conferi. Bem básico."
"Nenhuma reclamação sobre a quantia então?"
"Não, eles nem contaram sinceramente. Pareciam...um tanto quanto bêbados."
Eu sei melhor do que mencionar a verdade. ASD, há dois anos que a droga começou a ser comercializada nos guetos e desde então as vendas nunca diminuíram. Os três caras de ontem com certeza consumiram mais do que sua dose diária habitual, sendo sincera eu achava que eles nem iam pegar o dinheiro.
"Ótimo, se eles tivessem noção da fortuna que deixaram de ganhar, nós teríamos problemas." -E é como se o homem de negócios fosse embora. A postura relaxa, ele bagunça os poucos fios de cabelo que tem e bota aquele boné azul tão usado que eu já aprendi a associar a casa, e solta finalmente um sorriso. "Então eles foram embora e por que você não veio para cá de volta, eu juro que ficamos preocupados?"
Eu relaxo também, nem havia notado o quanto minhas mãos estavam tremendo só para me segurar. Entrego logo o pacote para ele, prefiro ficar com isso longe de mim agora. "Faltou luz e eu ainda estava perto da cidade. Fiquei por lá então. Aí hoje eu consegui ter um acidente de ônibus, legal não?"
"Bem agitada sua vida"- dentro do pacote o disco rígido. O velho disse que valia realmente muito dinheiro no mercado da cidade alta. Difícil de acreditar, não se vê ninguém com computadores sem ser o exército e mesmo assim raramente, o exército não teme a si mesmo. "Os curativos? Gary disse que apesar de estar feio não foi nada tão grave."
"Não senhor, nada que semana que vem não esteja normal."
Com um aceno de cabeça, ele me despensa e se vira para o telefone. Eu sei minha deixa e sinceramente comida de verdade me parece mais interessante nesse momento. Antes de eu sair ele ainda me lembra, como sempre, que eu posso dizer se tiver algum problema.
Eu sei que ele não está pensando em mim exatamente. Mas, o carinho pelo menos dá uma ilusão de normalidade. Gary está cozinhando hoje, devia ser eu, claro que a desculpa de não poder ficar em pé muito tempo só funcionará até o café-da-manhã. E eu nem sei do que ele reclama, mingau nem é realmente difícil de ser feito. Mesmo que inclua duas crianças.
Gabriel e Raphael já estão sentados com suas tigelas a frente. Não tenho certeza se a mistura roxa a frente de Gabe é realmente mingau. Geleia de uva, é a explicação que Raphael dá. Alguns minutos depois o velho se junta a nós.
Dia 7 Zack, rascunho
Quando alguém que você gosta vai embora, mesmo podendo ter ficado o buraco é menor. Há uma magoa que não havia antes, um amargor. O problema é que a casca dessa ferida pode ser arrancada múltiplas vezes.
Eu sinto falta do meu pai, eu lembro pouco da minha mãe. Eu já me conformei em não ter nenhum dos dois. Zack é diferente. E entre a imundície do centro da cidade eu procuro por ele mesmo sem esperanças de achar.
Se eu passasse pelo centro de ônibus todo dia, acho que todo dia eu observaria com a mesma esperança depressiva e é por isso que eu não acho que nos quatro anos que se passaram esse buraco está mais perto de fechar.
Por isso não fico feliz de sair do campo diretamente para cá. O velho disse que eles estariam esperando nessa esquina. Quando dá o horário não há sinal dos dois.
Ninguém gosta verdadeiramente de esperar. Eu especialmente. Duplamente especialmente considerando que estou apoiada em um carro empoeirado numa esquina não asfaltada e os prédios baixos semi abandonados ao redor só me fazem acreditar que algo vai me atacar em breve. Eu sei me defender. Mas prefiro não ser atacada, entende?
Dez. Quinze. Vinte minutos depois tem movimento no final da rua. Movimento demais. O Ford para na minha frente com Gary mandando eu entrar correndo. Você sempre obedece quando alguem faz isso. Depois você pergunta porque, mas primeiro você faz.
-Coloca o cinto. diz o velho dividindo sua atenção entre o retrovisor e a estrada a frente. Gary não desgruda os olhos do eespelho e sem querer parecer alarmada mas eu acho que é uma arma que ele tem nas mãos.
Não estamos a duas quadras de distância quando surge uma caminhonete no final da rua e eu sou eternamente grata pelo carinho com que o velho cuida dos seus carros porque aquilo ali com certeza deveria ser mais rápido que a gente.
Conseguimos manter a distância. Mas eles continuam atrás de nós e eu preferia ter ficado esperando do que estar aqui agora.
"Siga pela direita"diz Gary "a segunda avenida está cheia de destroços ainda,o carro não vai passar".
Mas o velho vira a esquerda para o choque de Gary que não exagerou sobre o estado da estrada. Há lixo revirado, carcaças de carros abandonados e pássaros tentando achar alimentos. Mas o pequeno ford passa sem grandes problemas. A caminhonete não.
Viro para trás e vejo a distância aumentar.
Suspiro. "Próxima vez sem emoção, por favor"
"Nós só iamos vender algumas peças sobressalentes, como te disse ontem. Mas aí eles não queriam entregar o valor combinado."
"E aí vocês começaram uma emocionante perseguição de carros?"
"Nao. Aí nós resolvemos não vender." -diz o velho "agora vocês vão dar uma olhada nos potenciais compradores no mercado enquanto eu vou até as docas pegar mais comida. Em meia hora estarei de volta, tratem de usar seus rostos bonitos e lucrar."
E assim somos deixados na entrada do gigantesco galpão negro.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Ônibus
Não é que ele gostasse de companhia. Muito antes o contrário. Elê adorava a sensação de alívio qur sentia toda vez que pegava um ônibus vazio. E ele sentia o suor escorrer por baixo do terno barato que usava toda vez que o ônibus começava a lotar.
Usualmente apoiava a bolsa na cadeira da frente e sentava no corredor. Como se assim tampasse o caminho e ninguem pudesse sentar ao seu lado. Como se o ato de pedir licença impedisse as pessoas de sentar, como de fato o impediriam. Por isso ele sempre senta no corredor.
Hoje não é diferente. É um desses dias chuvosos da primavera carioca, onde os quarenta graus do dia anterior se transformam em dezoito durante a noite.
Hoje ele passou pelo metrô no centro as seis da tarde sem suar. E se você não sabe o quanto isso é raro duvido que conheça o Rio de Janeiro. O dia está sendo bom, o trânsito está horrendo, mas sem o calor o humor das pessoas sofre uma pequena melhora. Inclusive o dele.
Ele pega o ônibus no ponto final. Senta em sua posição usual, perto da saída e espera. E espera. O ônibus enche lentamente, mas sem parar. Em breve todos os bancos vazios tem uma pessoa e com alguma sorte ele consegue passar por isso sem companhia.
Mas o ônibus continua a lotar. A ansiedade começa a bater, a mochila a frente vira um tambor.
A fila que se forma avisa a ele que é inevitável. Não há jeito desse ônibus não lotar.
Dito e feito, logo todos os lugares estão lotados. Há gente nas escadas, há gente em pé. E assim o ônibus parte. Tenta partir. Porque hoje choveu. Ou seja nada anda.
Os minutos passam mas o cenário quase não muda. As mesmas ruas pouco arborizadas, os mesmos prédios da década de 80, os mesmos pequenos comércios.
Ele não consegue parar de olhar o relógio. Já fez um jogo consigo mesmo para parar, mas é
impossível. Os pensamento fluem rapidamente. A casa vazia, as contas a pagar, uma viagem no início do ano, aniversário do sobrinho chegando, tudo tão ínfimo, mas menos ínfimo do que o que aquieta agora.
Porque o ônibus está cheio e não anda. E ainda assim não a ninguém ao seu lado.
Ele sabe que não tem nenhum cheiro estranho, a poltrona não está suja, ele não está ocupando todo o espaço. A mochila desistiu de sua posição habitual e já se encontra no chão sobre os seus pés. E mesmo assim ninguém. Como se o local ao seu lado fosse invisível. Ele cogitou isso. Não o local ser invisível mas as pessoas simplesmente não estarem vendo. Possível, não provável. Mas a idéia o aquietou um pouco. Claro que foi difícil mante-la com as pessoas se apoiando no corredor ao seu lado.
Talvez essa menina não queira sentar. Talvez ela esteja feliz ouvindo sua música em pé. Assim como uns outros sete passageiros perto que estão no mesmo estado. A probabilidade não contribui muito para essa hipótese.
Sem a mochila para ser agarrar ele tenta manter as mãos no colo. Fixas. Não consegue, precisa checar o relógio. Precisa ajeitar o óculos. Precisa fazer qualquer coisa menos manter as mãos fixas.
Uma hora de viagem pseudo solitária. O dobro do tempo habitual do trajeto e ele ainda não está na metade do caminho. A chuva está fraca.
Ele faz sinal para descer. O motorista abre a porta e em segundos ele se vê do lado de fora sem nada entender.
O trânsito ainda está parado e está chuviscando. Seus óculos vão molhar e os seus sapatos vão acabar estragando. Sua mochila não tem o melhor dos impermeabilizantes mas tem uma serie de documentos importantes em compensação.
Mas quando ele ultrapassa o próprio ônibus a pé e vê que agora há dois lugares vazios ao invés de um, ele vai para casa sorrindo sabendo que a culpa, dessa vez pelo menos não é dele.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Dia 5 Lembranças
Os negócios tem ido consideravelmente bem, mas eu não tive que fazer nenhuma entrega, infelizmente. O que significa um mês praticamente sem ir a cidade. Exceto no final de semana passado que fomos no mercado da cidade baixa.
O lugar é sujo, literalmente. O esgoto não funciona direito naquela parte da cidade deixando um fedor horrendo que é o que mantem os soldados longe. Fica bem perto das antigas docas e todo o contrabando chega por aqui. O velho no caso veio comprar informações, saber como anda as coisas fora dos limites da cidade. Sinceramente, não há nada interessante acontecendo no mundo inteiro, na minha opinião. Então eu fico com as crianças enquanto Gary vai com o velho.
A primeira vez que eu vim aqui, havia apenas umas parcas barracas e as ruas estavam em uma situação bem pior. O velho me trouxe para comprar algumas roupas. Eu tinha roupas e eu lembro dele sorrindo e dizendo "Roupas de garotas." e eu realmente preferia que ele me comprasse um brinquedo, mas de jeito nenhum eu ia pedir. O que não interferia no jeito com eu olhava os animais de brinquedos. Eles eram feitos com batata ou algo parecido e eu tinha me encantado particularmente com o cavalo. Ou eu achava que era um cavalo, na época eu nunca tinha visto um cavalo de verdade.
Zack me levou para experimentar as roupas ou algo parecido e quando eu voltei o velho perguntou se estava tudo certo e se abaixou e me entregou o cavalo. Foi a primeira vez que o abracei e ele disse, que ele podia não dar tudo que eu quisesse mas que eu nunca ia saber se eu não pedisse.
Na época a gente não tinha muito mais dinheiro do que para comer mesmo e comprar coisas para revender. Nem todas as famílias queriam ir até as docas para comprar seus alimentos então a gente levava até eles. Eu não tenho noção da extensão dos negócios do velho nos últimos anos, mas se for considerar a quantidade de dinheiro que me dão para eu distrair os pequenos, as coisas vão indo bem.
O sol nem sai direito nesses dias de inverno. O mercado está cheio justamente por isso, a falta de sol, o vento gélido faz com que o ambiente seja um pouco mais suportável. Pelo menos antes de chegar a primeira neve. A lista de compras é curta, Raph precisa de botas e Gabe precisa de um gorro. Um que ele consiga manter durante os próximos dois meses de preferência. O velho precisa de luvas, mas de jeito nenhum ele coloca algo para ele na lista. Ele nunca coloca. Gary está bem abastecido para o inverno, só a mente dele que precisa de alguma diversão porque aparentemente ele não sabe o que é isso.
É no meio desses passeios que eu me pego pensando o quanto a vida antes podia ser melhor. Sinceramente, isso já está bastante bom. Eu sei que isso é uma visão pessoal e tem muita gente em situação pior e que eu devia esperar mais da vida, ter grandes sonhos...Entretanto acho a frustração desnecessária. Não dá. Não existem mais as coisas que antes haviam.
De uma geração para outra todas as perspectivas mudaram. Ok, senhor, legal como você foi para a faculdade e sonhava em poder criar arte e ser famoso, mas seus sonhos não me inspiram. E eu não quero ficar deprimida porque o meu mundo não é colorido como o seu costumava ser.
Quando Gabriel me pede, com o enorme sorriso amarelado, uma câmera antiga, meu primeiro pensamento não é que é muito caro revelar fotos. Ela liga, funciona a bateria e tem um carregador. Eletricidade pode não ser farta mas acho que dá para ele carregar pelo menos de vez em quando, nem que seja para ele ficar observando as fotos na tela.
O velho tem um laptop. Uma coleção deles, a maioria não funciona inteiramente e a gente se diverte trocando as peças até que eles liguem. Funciona como uma planilha mais fácil de adicionar e marcar coisas. Ou como um caderno. Um caderno que você não precisa riscar as coisas quando erra, só apaga e marca o novo.
Ele diz que eles eram muito uteis e que as pessoas costumavam passar o dia inteiro com eles. Ele diz também que eu provavelmente seria uma dessas pessoas, que em outra era ele teria uma garota que ficaria no quarto o dia inteiro e que brigaria com os irmãos se eles tocassem no computador. Ele diz que prefere quem eu sou hoje do que quem eu poderia ser e eu seria uma grande mentirosa se eu dissesse que não fiquei envergonhada com o comentário.
Gary aparece enquanto os gêmeos estão experimentando roupas. Gabe e Raph se acabam de rir com ele provando os mais diferentes casacos. "Eu já tenho agasalho, se lembram". O lembrete do casaco azul não é o suficiente para tirar os gêmeos de sua brincadeira. Somente quando estamos todos dentro do ônibus e os dois folgados adormecem em nós que o silêncio volta a reinar.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Dia 4 Casa e comida.
"Eu que te pergunto o que houve, primeiro você não volta para casa, depois falta seu turno e agora todos esses machucados. Quando foi que você se tornou tão irresponsável?" -Tento me concentrar nele. Dizem que se você manter seus olhos em um ponto fixo, as chances da tonteira melhorar são maiores. Não sei do que ele está reclamando. Não é nem como se ele estivesse em um bom estado também. Parece que não dorme há dias e há fuligem cobrindo seu rosto e sinceramente se eu tivesse que chutar nesse momento eu diria que ele tem quase trinta anos, o que eu sei bem que não é a realidade.
Ele fala isso, mas a expressão dele é preocupada. As sombrancelhas franzidas e os pequenos riscos ao lado dos olhos azuis mostram isso. Gary nunca foi muito bom em expressar as coisas com palavras então ele devia ser grato por suas expressões sempre denunciarem tudo. Claro que ao invés de ser grato ele odeia quando a gente diz isso a ele.
A caminhada é lenta e dolorosa. Odeio quando tenho que fazer as coisas devagar mas cada vez que tento me apressar a dor manda calafrios nas minhas costas. No final da rua principal viramos a direita e ali está, o lugar que eu chamo de casa. Ou pelo menos tenho chamado nos últimos sete anos.
A casa tem uns quarenta anos de idade, o pai do velho que construiu. Ele queria poder ficar perto dos filhos após a esposa falecer então tinha desistido do trabalho na cidade para tentar fazer algo em casa, o que resultou no quintal gigantesco ser transformado em uma garagem.
O velho mostra nas fotos antigas como era, tinha uma parte separada para consertos leves, logo na frente. Um galpão de restauração e o resto ele guardava os carros que ele achava que ainda podiam ser utilizados para alguma coisa. Agora os carros se encontram empilhados ao redor da cerca, delimitando o terreno. A frente da casa está sem pintura e a varanda tem piso faltando em diversos pontos. Entretanto as paredes são firmes, as portas e janelas são reforçadas e o teto não tem vazamento e no fundo sabemos que devemos ser gratos por isso.
Gary bate na porta e fica esperando eu me juntar a ele na varanda. Eu só quero tomar um banho e colocar logo curativos nessa perna, ficar mancando não é exatamente opção. A porta se abre e dois pares de olhos castanhos nos observam desconfiados.
-Gabriel, Raphael. Vocês dois podem nos dar licença? - Gary e o velho são os únicos que conseguem ser duros com os dois. É impossível para mim quando eles fazem essas expressões adoráveis.
"Não sei, você acha que são eles mesmos?"
"Acho que deviamos conferir."
"Com certeza deviamos. Mas, como?" - Raphael dizia quando Gary resolve empurrar a porta de uma vez por todas.
"Qual o problema de vocês dois, não vê que ela tá machucada?"- ele diz enquanto me direciono ao sofá.
E pronto, agora eu tenho dois pequenos ao meu redor querendo examinar meu machucado. Raphael já está perguntando como foi a dor, se eu vi cadáveres distorcidos, sério, que tipo de pessoa ele está se tornando? Gabriel não, ele se senta automaticamente ao meu lado no sofá e fica me encarando como se de alguma forma fosse resolver tudo, mas se recusa a olhar o machucado. Encosto a calça ensanguentada nele só pela diversão em vê-lo sair correndo.
"Você devia dar exemplo, não piorar a situação."
"E você não tem que ser o pai de todo mundo, sabia?"
Há alguns sacos de alimentos espalhados pela sala. Aparentemente as vendas de ontem foram boas, o que significa uma semana sem grandes preocupações. Não há nada demais na sala, nada restou da antiga decoração praticamente, tudo vendido quando a crise começou, só o que foi deixado foi uma foto do velho com seu irmão e uma do casamentos dos pais deles. Fora isso só o sofá , velho, mas ainda confortável. A estante com seus parcos livros que eu e Gary construímos uns anos atrás e sempre achávamos que não ia aguentar nenhum peso mas que ainda está aqui. A mesa de centro inventada a partir de um caixote e que basicamente serve para apoiar copos e é isso.
O velho ensinou a gente a não deixar nada de valor no primeiro andar, só o que for comida e mesmo assim os embutidos estão guardados num quarto que não é utilizado no segundo andar. A porta da cozinha é reforçada mas não é nada em comparação a porta que dá para escada. E a porta no topo da escada.
Me levanto também. Já deu para notar que o velho ainda não chegou e eu realmente preciso limpar esses ferimentos antes de poder falar com ele. A casa foi feita para 6 pessoas. Mas, tem apenas 2 banheiros, ah, e algo que você poderia chamar de banheiro do lado de fora.
Subo as escadas ainda com Raphael me observando. Não é como se ele tivesse algo mais interessante para fazer então não posso realmente culpa-lo, pelo menos ele abre as duas portas para mim sem nem eu pedir.
O segundo andar em nada lembra a deprimente sala. O longo corredor foi pintado de vermelho há poucos meses atrás, a escolha da cor foi do Gabriel, obvio. E apesar de ser horrendamente chamativo, me dá uma sensação de dinheiro. Provavelmente é só porque é tão novo e bem pintado. Há alguns quadros aqui também, no geral dos desenhos feitos pelos gêmeos que a gente simplesmente pendura na parede ou até fotos nossas, dessa família desajustada.
A porta do banheiro é a única que fecha com tranca. Rapha me acompanha até a frente dela e segura-a para mim enquanto entro. É engraçado contrastar a figura pequena, descalça, a camisa larga e os cabelos aloirados tão bagunçados com o rosto tão determinado e responsável. "Grita se precisar de ajuda" ele diz antes de sair todo sério e eu sei que ele vai verdadeiramente ficar prestando atenção porque é isso que Raphael faz.
Não tenho necessidade de fechar o trinco, esforço inútil. No momento tenho que me concentrar no fato que o jeans se grudou nos cortes. E não levemente. O suficiente para eu considerar cortar todo o jeans e tentar lavar com essa parte presa mesmo. Não vou fazer isso, eu sei que no fundo vou ter que descolar de um jeito ou de outro.
Afasto as cortinas e ligo o chuveiro. Tenho a impressão que pelo menos debaixo d'agua a dor vai ser mais tolerável. Eu espero sinceramente que eu esteja certa. Já vi isso acontecer antes e o jeito como sangra não é nem um pouco bonito.
Começo a tirar a calça devagar até que decido ser um pouco mais corajosa e agir como se fosse um band-aid. Dor. Dor o suficiente para eu não conseguir esconder um gemido. A porta é aberta rapidamente e os pequenos da casa me olham desesperados até que eu tente tacar algo neles. O mais perto que encontrei foi o sabonete e não posso reclamar, a porta se fecha logo em seguida, mas agora preciso pegar o sabonete.
Daqui a pouco, por enquanto é melhor deixar a água simplesmente passar no machucado.
domingo, 29 de setembro de 2013
Dia 3 Chegando
Merda. De repente todos os sentidos estão acordados. Preciso sair daqui. Rápido. O ônibus está virado. Os passageiros estão nos mais diversos estados e céus, o quanto eu daria para não ter mais que ver gente morta. O quanto eu daria para passar uma semana sem gente morrer na minha frente.
A tonteira é imediata. Ninguém mandou eu ficar de pé tão subitamente. O sangue é do corte da minha cabeça mesmo, tenho certeza que tem algo errado por eu achar isso uma boa notícia mas com a quantidade de drogas que as pessoas usam hoje em dia para se manterem sobrevivendo é melhor evitar esses contatos diretos. Intimidade demais.
A perna esquerda dói. Muito. Não o suficiente para eu não conseguir arrastá-la. Me suspendo pela janela já quebrada, uma senhora no ônibus começa a gritar por ajuda. Seu braço parece preso nas engrenagens e eu sei que não tem jeito de tira-la dali sem matá-la de tanto sangramento. Um dos sujeitos que estava dormindo nos bancos se aproxima dela. A expressão no seu rosto me diz que está na hora de ir embora.
Estar do lado de fora abafa menos os gritos dela do que eu imaginava. A poeira está absurdamente alta e metade dos prédios não existem mais. Uma explosão. Ou implosão mal feita. Se foi programada em breve uma patrulha estará conferindo. Se não foi podemos contar com uma duzia de pessoas vindo conferir.
Regra de ouro. Sempre é melhor sair da estrada principal. Regra de prata, ao sair da estrada principal tome cuidado com as pessoas que também conhecem a regra de ouro. Me arrasto entre 2 prédios , um deles está porcamente de pé ainda, o pórtico totalmente destruído. O outro, bem, parece normal tirando o fato que aparentemente o último andar se encontra no chão. Caminho entre os destroços, o avanço é lento, há alguns outros gritos do ônibus agora o que significa que preciso chegar até a rua paralela.
Faço o caminho sem parar para repousar. A entrada do distrito 3 é a menos de sete minutos. Pessoas se aproximam, elas passam por mim sem olhar duas vezes. Chego a rua lateral e preciso de pelo menos dois minutos no umbral de um prédio para me recuperar.
Minhas pernas já não me mantêm. Só preciso sentar um pouco aqui na calçada, só um pouco....
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Dia 2 Caminho.
A alcova é bem diferente dos outros esconderijos. Me lembra mais um lugar seguro que todos os outros. No inicio eu queria passar todo o tempo aqui, para aproveitar antes que algum desastre ocorresse e eu deixasse de existir. Com o passar das semanas, meses, eu não acho mais que irei morrer a cada esquina. Então deixo para vir em emergências apenas. Mais provável do que eu morrer é alguém me tirar esse lugar se me virem entrando sempre.
Outra coisa sobre a alcova é que ela não recebe luz matinal. Nenhuma. Apenas depois de meio dia o sol começa a entrar o que torna impossível olhar a vista de tarde. E é esse sol que me acorda juntamente com meu estômago reclamando.
Chuto uma hora da tarde agora, quase 16 horas desde a última refeição. Coloco a cama no lugar de antes, levanto os objetos que deixei cair enquanto entrava de madrugada e estou pronta para sair. Abrir os trincos, a porta, fechar a porta, fechar os cadeados. Rotina de segurança.
Saio do beco com cuidado, a rua já está lotada de pessoas, em busca de algo o que comer, de algum serviço que possam fazer em troca de abrigo ou alimentação. E existem os grupos nos cantos querendo pegar o que as outras pessoas conseguirem.
Logo quando tudo isso começou as pessoas buscaram juntar-se em grupos, em geral com sua própria família. O governo diz que se uma pessoa a cada 4 trabalhar diariamente não vai faltar nada. Mentira. Os vizinhos do meu tio moram em um grupo de cinco, os três adultos trabalham todo dia e as duas crianças parte do dia. É isso ou ser vendida e bem, ninguém quer ser vendido.
Mal saio na principal e o cheiro me enoja. A avenida está infestada de pessoas nos seus mais diferentes estados. Corpos jogados nus no chão, mortos por seus parcos pertences. Crianças tentando saquear o pouco que restou. Casas abertas, vidros quebrados. Isso é o que o apagão faz. Você não precisa ter medo que alguém te veja, ninguém vai pegar seu número de identificação, ninguém vai saber que foi sua culpa. você vai poder alimentar sua família. Agasalhar-la considerando que o inverno está na esquina. Vai poder comprar remédios. Uma chance muito boa para deixar passar e assim a oportunidade faz o ladrão.
Eu prefiro ficar na minha. Lá no inicio, eu ainda tentava pegar alguma coisa, mas fui castigada o suficiente para preferir me esconder. Quanto menos atenção melhor.
Coloco o capuz e caminho até o ponto de ônibus,o que na realidade é só uma plaquinha. O tempo de espera pode ser qualquer coisa entre um minuto e três horas e por mais que nada seria tão agradável (exceto por comida) do que colocar os fones de ouvido, preciso ficar atenta.
A caminhada até o ferro velho é de cinquenta minutos. A maior parte do caminho é pelo distrito 3 o que significa que já roubaram tudo o que podiam de lá há muito tempo então dá para caminhar mais tranquilamente. O que é bem diferente daqui onde todos te encaram tentando calcular com os olhos quanto você vale.
O ônibus chega antes que alguem decida que eu sou um bom alvo. Lembro subitamente porque qualquer caminhada é melhor do que o transporte público. Nem falo só sobre o fato de quase não haver cadeiras mais, da sujeira e das pessoas dormindo. Não dá para escapar no ônibus.
As janelas podem estar abertas, dando a ilusão de liberdade. Só que a verdade é que eu estou presa aqui pelo menos até a próxima parada. 7 minutos até ela alias. São 19 minutos até a entrada 1 do distrito 3. Tento me concentrar nisso mais do que tudo.
Lily vai ficar tão feliz quando souber o que eu estou levando. Ela e Jos já devem estar voltando das suas obrigações por essa hora e com sorte o velho guardou um pouco de comida para mim. Ele vai ficar chateado por eu não ter ido ao campo. Hoje quero fingir que não preciso ir lá, que não preciso nunca mais ir. Que eu posso simplesmente voltar para o ferro velho, concertar algumas coisas, ver tv - a quanto tempo eu não vejo tv?- beber algo gelado e deitar ao relento. Fingir que amanhã não haverão consequências para esse dia de folga.
Ele não vai falar nada quando me ver chegar assim, ele nunca fala. Algo como você já está encrencada mesmo, que pelo menos você fique feliz até tudo cair na sua cabeça. Acho gentil da parte dele, quase acredito que ele entenda. O que só faz com que eu tenha vontade de chegar mais rápido. O bom de andar é que você faz seu pas-
domingo, 15 de setembro de 2013
Dia 1 Escuridão
Não se engane, você realmente sente que abriram buracos entre os seus tecidos e o sangue quente encharcando a roupa não faz a sensação mais prazerosa. Mas eu estou viva. E isso é mais do que eu esperava.
Eu tinha cinco anos quando a crise aconteceu. O mundo ficou sem energia durante 11 dias. Não deveria ser um grande problema, não? Eu achava que não. Mas, o mundo que se reergueu depois desses onze dias é bem diferente do mundo que havia antes. Em sentidos que eu não posso nem começar a entender.
As pessoas costumam falar como era o país antes da crise. Como tudo era organizado e todos viviam felizes. Mentira. Mesmo sem livros para apoiar minha opinião, eu afirmo que não, as coisas não eram tão boas antes. Mas, pelo menos eles tinham luz...
Tenho um especial apreço pelas noites escuras. Quando decidem desligar todas as luzes da cidade sem aviso prévio. Não sei se é realmente de propósito, acho que com a quantidade de assassinatos que acontecem nesses momentos, deve ser mais para controlar a população. Medo é sempre um excelente controlador.
Há poucas luzes nas ruas e no geral bem fracas, famílias buscando um lugares para se refugiarem. Um lugar que as proteja dos que andam na surdina. Verdade seja dita, não há reuniões dos grupos rebeldes nas noites escuras. Quem tem casa, se tranca. Quem não tem, arranja um lugar vazio, para se trancar também. Eu entendo. Ninguém tem tempo para apreciar as estrelas. Essa gente mal tem tempo para sobreviver. Entendo eles não se divertirem observando a lua. É difícil se divertir quando tem sombras buscando sequestrar seus filhos. Crianças e seu alto valor de revenda.
Também não é seguro para mim. Tenho meus esconderijos fixos já. Um em cada canto da cidade pelo menos, por causa das emergências. Nem todos muito confortáveis, mas esse aqui, esse aqui tem até uma cama. E um rádio. Tudo o que uma garota poderia sonhar.
Passo pelas pessoas correndo por um lugar, entrando no beco. A escadaria de emergência do prédio 156 da rua 17 e pronto. Em alguns minutos estou na porta do terraço. Destranco a porta, abro o cadeado. Entro, passo os trincos. Todos os sete. Quando não se tem muito, o esforço para proteger o que se tem pode ser abismal.
A escuridão me engole com a porta fechada, mas eu sei meu caminho. A parte mais interessante desse esconderijo é a alcova. Pé direito alto, no topo de um prédio de 14 andares, faz com que eu me sinta segura. E também me proporciona uma bela vista do céu da cidade. As estrelas se encontram absurdamente visíveis e não há barulho de carros nas ruas, as patrulhas não passam quando não tem luz.
Puxo a cama para logo abaixo da alcova. Melhor dormir assim. O peso do pacote no meu bolso não pode ser esquecido. Eu sei que tinha que voltar para casa hoje, mas sei que eles vão entender que não é possível. Provavelmente vão ficar mais surpresos de eu realmente ter procurado um lugar para ficar. Tantas coisas para resolver amanhã....
Fecho os olhos e deixo o cansaço tomar conta de mim. A luz do dia trará seus problemas novamente.