sábado, 5 de novembro de 2016

Dia 6 Segurança

É engraçado como existe aquele lugar que é simplesmente seu. E por mais perfeito que ele seja você sabe que um dia vai olhar para trás e não vai sentir mais a mesma coisa. As coisas mudam, sempre. Gary não gosta quando eu falo isso, mas é verdade. E está tudo bem, não significa que o que era sua casa antes deixou de ser importante, significa que você mudou e fez outras casas. Acho.
A verdade é que eu não consigo imaginar outro lugar com uma sensação de segurança tão grande quanto aqui, deitada na minha cama. Daqui eu consigo ver a porta e a janela. No caso entre as frestas da janela. Consigo ver a mesa acompanhada da antiga cadeira de madeira que tem quatro pés pintados de cores diferentes. Não há um armário, o que há são 2 longas tábuas servindo de prateleira uma embaixo da outra e há livros pelo chão. Minha bolsa está sempre ao pé da cama, sempre acessível e eu já planejei um milhão de rotas de fuga estúpidas, mas que me dão uma segurança enorme ao saber que não estou trancada.  Apesar de que pular do segundo andar é sempre uma ideia estúpida.
O quarto é lilás. Foi pintado em outra era, para outra garota, mas ainda dá para ver que a cor era lilás. Existem diversas marcas, eu sei que causei a maioria delas e só eu entendo o que elas causam em mim. E apesar de todas as particularidades, de ser aqui que todas minhas coisas ficam, aqui onde eu não tenho que dormir abraçada com a minha bolsa, onde eu posso dormir de pijama, eu sinto falta do esconderijo de ontem. Aquilo ali tem tanto potencial. E só a desvantagem de ser tão perto da cidade.
Claro, no momento é impossível. Eu tenho que fazer meus turnos todos os dias e aqui fica bem mais perto e existe ainda as crianças para olhar. Mas, esse é meu último ano antes de pedir a transferência e parece tão esquisito sonhar com esse tipo de independência. Não é tempo para sonhos, ninguém fala disso. Não é como se eu fosse para um apartamento legal, arranjar um emprego, ir para festas a noite e conhecer pessoas.
É só que eu vou poder ir para um lugar onde posso ver as estrelas praticamente toda noite e eu não tenho que falar com ninguém. Isso já me parece bom o suficiente. Ou é apenas minha mente tentando arranjar uma distração da realidade.
Quando batem na porta, eu me levanto rápido. O velho finalmente chegou. Pego a minha bolsa e abro a porta. Gary. "Ele está no escritório, quer falar contigo."
"Estou ocupada". Não, não estou. Mas, vale a pena ver a cara de choque do Gary. Sempre tão bom soldado, obedecendo a tudo que ele nem consegue ver que eu já estou indo em direção ao escritório, só batendo a porta atrás de mim.
Elas fecham automaticamente. As portas. Só bater, não precisa passar trinco. Quando eu lembro da primeira noite que eu passei na casa anos e anos atrás, eu lembro da segurança que isso ofereceu. Eu lembro que eu estava com tanto medo de tudo, medo do velho que eu achava que ele tinha me resgatado para fazer algo ainda pior comigo. Mesmo sendo difícil imaginar o que seria pior do que ser vendida. Mas, eu lembro do alívio de quando ele me deixou no quarto e me mostrou que só eu podia abrir a porta e finalmente eu pude respirar tranquilamente.
O escritório na realidade é só um pequeno quarto no primeiro andar, perto da cozinha. Era o quarto de empregada antigamente. Abro a porta sem bater. Apenas para ser repreendida com um olhar. "Aparentemente só é necessário um dia fora para esquecer tudo que aprendeu nessa casa." Ele diz sem nem desviar o olhar do caderno a sua frente.
Esse é o jeito dele de demostrar carinho, eu sei. Então eu so me sento a sua frente e espero. "Gary me disse que você não foi no seu turno. Ele me disse tambem que você machucou a perna entretanto ele não sabe me dizer como." 
Não são perguntas. Sinto meu rosto enrusbecer.  Nao é de culpa. Um pouco de raiva, um tanto de ansiedade e uma vontade de esfregar na cara dele o embrulho.  Se eu não tivesse ido ao centro pegar a encomenda não teria uma perna enfaixada, não teria perdido o turno e nem o jeans que eu gostava. Nem a camisa. E também não estaria tendo essa conversa.
Apesar que conversas precisam ser pelo menos bilaterais. 
Eu sei que é um teste como sempre. Ele quer que eu controle minha ansiedade, meu orgulho. Que eu aprenda a ouvir calada, porque ano que vem é ano de ser jogada aos lobos e eles não vão ser coniventes com meu comportamento. A consciência de que é proposital não me ajuda em nada a me acalmar.
Fico calada, isso ao menos eu sei fazer. Quando nenhum comentário adicional vem, eu espero. Quando passa quase 10 minutos de silêncio, eu sinto minha resolução começar a se abater.
Como um relógio marcando o tempo, ele finalmente fecha o caderno e olha para mim. Dá para ver o quanto ele está exausto, os vincos na testa estão mais profundos do que o normal e essas olheiras não estavam desse tamanho da última vez que eu notei.
"O que houve ontem?"
Me ajeito na cadeira antes de começar a história. "Correu tudo bem, eles estavam no local marcado. Três deles. Cheguei mais cedo, deixei o dinheiro escondido como você mandou. Eles entregaram o pacote, eu conferi. Bem básico."
"Nenhuma reclamação sobre a quantia então?"
"Não, eles nem contaram sinceramente. Pareciam...um tanto quanto bêbados."
Eu sei melhor do que mencionar a verdade. ASD, há dois anos que a droga começou a ser comercializada nos guetos e desde então as vendas nunca diminuíram. Os três caras de ontem com certeza consumiram mais do que sua dose diária habitual, sendo sincera eu achava que eles nem iam pegar o dinheiro.
"Ótimo, se eles tivessem noção da fortuna que deixaram de ganhar, nós teríamos problemas." -E é como se o homem de negócios fosse embora. A postura relaxa, ele bagunça os poucos fios de cabelo que tem e bota aquele boné azul tão usado que eu já aprendi a associar a casa, e solta finalmente um sorriso. "Então eles foram embora e por que você não veio para cá de volta, eu juro que ficamos preocupados?"
Eu relaxo também, nem havia notado o quanto minhas mãos estavam tremendo só para me segurar. Entrego logo o pacote para ele, prefiro ficar com isso longe de mim agora. "Faltou luz e eu ainda estava perto da cidade. Fiquei por lá então. Aí hoje eu consegui ter um acidente de ônibus, legal não?"
"Bem agitada sua vida"- dentro do pacote o disco rígido. O velho disse que valia realmente muito dinheiro no mercado da cidade alta. Difícil de acreditar, não se vê ninguém com computadores sem ser o exército e mesmo assim raramente, o exército não teme a si mesmo. "Os curativos? Gary disse que apesar de estar feio não foi nada tão grave."
"Não senhor, nada que semana que vem não esteja normal."
Com um aceno de cabeça, ele me despensa e se vira para o telefone. Eu sei minha deixa e sinceramente comida de verdade me parece mais interessante nesse momento. Antes de eu sair ele ainda me lembra, como sempre, que eu posso dizer se tiver algum problema.
Eu sei que ele não está pensando em mim exatamente. Mas, o carinho pelo menos dá uma ilusão de normalidade. Gary está cozinhando hoje, devia ser eu, claro que a desculpa de não poder ficar em pé muito tempo só funcionará até o café-da-manhã. E eu nem sei do que ele reclama, mingau nem é realmente difícil de ser feito. Mesmo que inclua duas crianças.
Gabriel e Raphael já estão sentados com suas tigelas a frente. Não tenho certeza se a mistura roxa a frente de Gabe é realmente mingau. Geleia de uva, é a explicação que Raphael dá. Alguns minutos depois o velho se junta a nós. 
É tao fácil se distrair do mundo lá fora. Do turno de amanhã, do aniversário chegando quando se está em casa. Quando tudo que você vê ao seu redor te lembra estar em casa. Te lembra que aqui ninguém pode te atacar, que aqui você pode rir em paz e as crianças tem até um quintal para brincar. É facil ignorar tudo. Até mesmo a cadeira vazia ao meu lado.Até mesmo a falta da voz dele e das brincadeiras. Gary me encara, mas nenhum de nós dois vai se atrever a falar algo. Nós não falamos sobre ele.

Dia 7 Zack, rascunho

As palmas de minhas mãos cobrem continentes
Quando alguem que você gosta morre se forma uma ferida. Algo que você espera que cicatrize mas parece que você tem alguma especie de doença e o negócio nunca fecha. Ele vai fechando aos poucos só que provavelmente ele ainda vai estar aberto quando você morrer também. E se você teve sorte na vida você vai deixar um buraco também e assim todos temos essas estúpidas cicatrizes.
Quando alguém que você gosta vai embora, mesmo podendo ter ficado o buraco é menor. Há uma magoa que não havia antes, um amargor. O problema é que a casca dessa ferida pode ser arrancada múltiplas vezes.
Eu sinto falta do meu pai, eu lembro pouco da minha mãe. Eu já me conformei em não ter nenhum dos dois. Zack é diferente. E entre a imundície do centro da cidade eu procuro por ele mesmo sem esperanças de achar.
Se eu passasse pelo centro de ônibus todo dia, acho que todo dia eu observaria com a mesma esperança depressiva e é por isso que eu não acho que nos quatro anos que se passaram esse buraco está mais perto de fechar.
Por isso não fico feliz de sair do campo diretamente para cá. O velho disse que eles estariam esperando nessa esquina. Quando dá o horário não há sinal dos dois.
Ninguém gosta verdadeiramente de esperar. Eu especialmente. Duplamente especialmente considerando que estou apoiada em um carro empoeirado numa esquina não asfaltada e os prédios baixos semi abandonados ao redor só me fazem acreditar que algo vai me atacar em breve. Eu sei me defender. Mas prefiro não ser atacada, entende?
Dez. Quinze. Vinte minutos depois tem movimento no final da rua. Movimento demais. O Ford para na minha frente com Gary mandando eu entrar correndo. Você sempre obedece quando alguem faz isso. Depois você pergunta porque, mas primeiro você faz.
-Coloca o cinto. diz o velho dividindo sua atenção entre o retrovisor e a estrada a frente. Gary não desgruda os olhos do eespelho e sem querer parecer alarmada mas eu acho que é uma arma que ele tem nas mãos.
Não estamos a duas quadras de distância quando surge uma caminhonete no final da rua e eu sou eternamente grata pelo carinho com que o velho cuida dos seus carros porque aquilo ali com certeza deveria ser mais rápido que a gente.
Conseguimos manter a distância. Mas eles continuam atrás de nós e eu preferia ter ficado esperando do que estar aqui agora.
"Siga pela direita"diz Gary "a segunda avenida está cheia de destroços ainda,o carro não vai passar".
Mas o velho vira a esquerda para o choque de Gary que não exagerou sobre o estado da estrada. Há lixo revirado, carcaças de carros abandonados e pássaros tentando achar alimentos. Mas o pequeno ford passa sem grandes problemas. A caminhonete não. 
Viro para trás e vejo a distância aumentar. 
Suspiro. "Próxima vez sem emoção, por favor"
"Nós só iamos vender algumas peças sobressalentes, como te disse ontem. Mas aí eles não queriam entregar o valor combinado."
"E aí vocês começaram uma emocionante perseguição de carros?"
"Nao.  Aí nós resolvemos não vender." -diz o velho "agora vocês vão dar uma olhada nos potenciais compradores no mercado enquanto eu vou até as docas pegar mais comida. Em meia hora estarei de volta, tratem de usar seus rostos bonitos e lucrar."
E assim somos deixados na entrada do gigantesco galpão negro.
Ele nos deixa a frente 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ônibus

Não é que ele gostasse de companhia. Muito antes o contrário. Elê adorava a sensação de alívio qur sentia toda vez que pegava um ônibus vazio. E ele sentia o suor escorrer por baixo do terno barato que usava toda vez que o ônibus começava a lotar.
Usualmente apoiava a bolsa na cadeira da frente e sentava no corredor. Como se assim tampasse o caminho e ninguem pudesse sentar ao seu lado. Como se o ato de pedir licença impedisse as pessoas de sentar, como de fato o impediriam. Por isso ele sempre senta no corredor.
Hoje não é diferente. É um desses dias chuvosos da primavera carioca, onde os quarenta graus do dia anterior se transformam em dezoito durante a noite.
Hoje ele passou pelo metrô no centro as seis da tarde sem suar. E se você não sabe o quanto isso é raro duvido que conheça o Rio de Janeiro. O dia está sendo bom, o trânsito está horrendo, mas sem o calor o humor das pessoas sofre uma pequena melhora. Inclusive o dele.
Ele pega o ônibus no ponto final. Senta em sua posição usual, perto da saída e espera. E espera. O ônibus enche lentamente, mas sem parar. Em breve todos os bancos vazios tem uma pessoa e com alguma sorte ele consegue passar por isso sem companhia.
Mas o ônibus continua a lotar.  A ansiedade começa a bater,  a mochila a frente vira um  tambor.
A fila que se forma avisa a ele que  é inevitável.  Não há jeito desse ônibus não lotar.
Dito  e feito,  logo todos os lugares estão lotados.  Há gente nas escadas,  há gente em pé.  E assim o ônibus parte. Tenta partir.  Porque hoje choveu.  Ou seja nada anda.
Os minutos passam  mas o cenário quase não muda.  As mesmas ruas pouco arborizadas,  os mesmos prédios da década de  80, os mesmos pequenos comércios.
Ele não consegue parar de olhar o relógio.  Já fez um jogo consigo mesmo para parar,  mas é
impossível. Os pensamento fluem rapidamente.  A casa vazia, as contas a pagar, uma viagem no início do ano,  aniversário do sobrinho chegando,  tudo tão ínfimo,  mas menos ínfimo do que o que aquieta agora.
Porque o ônibus está cheio e não anda.  E ainda assim não a ninguém ao seu lado.
Ele sabe que não tem nenhum cheiro estranho,  a poltrona não está suja, ele não está ocupando todo o espaço.  A mochila desistiu de sua posição habitual e já se encontra no chão sobre os seus pés. E mesmo assim ninguém. Como se o local ao seu lado fosse invisível. Ele cogitou isso. Não o local ser invisível mas as pessoas simplesmente não estarem vendo.  Possível,  não provável.  Mas a idéia o aquietou um pouco. Claro que foi difícil mante-la com as pessoas se apoiando no corredor ao seu lado.
Talvez essa menina não queira sentar.  Talvez ela esteja feliz ouvindo sua música em pé. Assim como uns outros sete passageiros perto que estão no mesmo estado.  A probabilidade não contribui muito para essa hipótese.
Sem a mochila para ser agarrar ele tenta manter as mãos no colo. Fixas.  Não consegue,  precisa checar o relógio.  Precisa ajeitar o óculos.  Precisa fazer qualquer coisa menos manter as mãos fixas.
Uma hora de viagem pseudo solitária.  O dobro do tempo habitual do trajeto e ele ainda não está na metade do caminho. A chuva está fraca. 
Ele faz  sinal para descer. O motorista abre a porta e em segundos ele se vê do lado de fora sem nada entender.
O trânsito ainda está parado e está chuviscando.  Seus óculos vão  molhar e os seus sapatos vão acabar estragando. Sua mochila não tem o melhor dos impermeabilizantes mas tem uma serie de documentos importantes em compensação.
Mas quando ele ultrapassa o próprio ônibus a pé e vê que agora há dois lugares vazios ao invés de um, ele vai para casa sorrindo sabendo que a culpa,  dessa vez pelo menos não é dele.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dia 5 Lembranças

As semanas passam sem incidentes.Quase sem notar o mês acaba e outro começa e não há nada a se dizer sobre os dias. Sim, Gabe e Raph cresceram alguns centímetros. Gabe se recusou a cortar o cabelo e agora é bem fácil de discernir os dois.
Os negócios tem ido consideravelmente bem, mas eu não tive que fazer nenhuma entrega, infelizmente. O que significa um mês praticamente sem ir a cidade. Exceto no final de semana passado que fomos no mercado da cidade baixa.
O lugar é sujo, literalmente. O esgoto não funciona direito naquela parte da cidade deixando um fedor horrendo que é o que mantem os soldados longe. Fica bem perto das antigas docas e todo o contrabando chega por aqui. O velho no caso veio comprar informações, saber como anda as coisas fora dos limites da cidade. Sinceramente, não há nada interessante acontecendo no mundo inteiro, na minha opinião. Então eu fico com as crianças enquanto Gary vai com o velho.
A primeira vez que eu vim aqui, havia apenas umas parcas barracas e as ruas estavam em uma situação bem pior. O velho me trouxe para comprar algumas roupas. Eu tinha roupas e eu lembro dele sorrindo e dizendo "Roupas de garotas." e eu realmente preferia que ele me comprasse um brinquedo, mas de jeito nenhum eu ia pedir. O que não interferia no jeito com eu olhava os animais de brinquedos. Eles eram feitos com batata ou algo parecido e eu tinha me encantado particularmente com o cavalo. Ou eu achava que era um cavalo, na época eu nunca tinha visto um cavalo de verdade.
Zack me levou para experimentar as roupas ou algo parecido e quando eu voltei o velho perguntou se estava tudo certo e se abaixou e me entregou o cavalo. Foi a primeira vez que o abracei e ele disse, que ele podia não dar tudo que eu quisesse mas que eu nunca ia saber se eu não pedisse.
Na época a gente não tinha muito mais dinheiro do que para comer mesmo e comprar coisas para revender. Nem todas as famílias queriam ir até as docas para comprar seus alimentos então a gente levava até eles. Eu não tenho noção da extensão dos negócios do velho nos últimos anos, mas se for considerar a quantidade de dinheiro que me dão para eu distrair os pequenos, as coisas vão indo bem.
O sol nem sai direito nesses dias de inverno. O mercado está cheio justamente por isso, a falta de sol, o vento gélido faz com que o ambiente seja um pouco mais suportável. Pelo menos antes de chegar a primeira neve. A lista de compras é curta, Raph precisa de botas e Gabe precisa de um gorro. Um que ele consiga manter durante os próximos dois meses de preferência. O velho precisa de luvas, mas de jeito nenhum ele coloca algo para ele na lista. Ele nunca coloca. Gary está bem abastecido para o inverno, só a mente dele que precisa de alguma diversão porque aparentemente ele não sabe o que é isso.
É no meio desses passeios que eu me pego pensando o quanto a vida antes podia ser melhor. Sinceramente, isso já está bastante bom. Eu sei que isso é uma visão pessoal e tem muita gente em situação pior e que eu devia esperar mais da vida, ter grandes sonhos...Entretanto acho a frustração desnecessária. Não dá. Não existem mais as coisas que antes haviam.
De uma geração para outra todas as perspectivas mudaram. Ok, senhor, legal como você foi para a faculdade e sonhava em poder criar arte e ser famoso, mas seus sonhos não me inspiram. E eu não quero ficar deprimida porque o meu mundo não é colorido como o seu costumava ser.
Quando Gabriel me pede, com o enorme sorriso amarelado, uma câmera antiga, meu primeiro pensamento não é que é muito caro revelar fotos. Ela liga, funciona a bateria e tem um carregador. Eletricidade pode não ser farta mas acho que dá para ele carregar pelo menos de vez em quando, nem que seja para ele ficar observando as fotos na tela.
O velho tem um laptop. Uma coleção deles, a maioria não funciona inteiramente e a gente se diverte trocando as peças até que eles liguem. Funciona como uma planilha mais fácil de adicionar e marcar coisas. Ou como um caderno. Um caderno que você não precisa riscar as coisas quando erra, só apaga e marca o novo.
Ele diz que eles eram muito uteis e que as pessoas costumavam passar o dia inteiro com eles. Ele diz também que eu provavelmente seria uma dessas pessoas, que em outra era ele teria uma garota que ficaria no quarto o dia inteiro e que brigaria com os irmãos se eles tocassem no computador. Ele diz que prefere quem eu sou hoje do que quem eu poderia ser e eu seria uma grande mentirosa se eu dissesse que não fiquei envergonhada com o comentário.
Gary aparece enquanto os gêmeos estão experimentando roupas. Gabe e Raph se acabam de rir com ele provando os mais diferentes casacos. "Eu já tenho agasalho, se lembram". O lembrete do casaco azul não é o suficiente para tirar os gêmeos de sua brincadeira. Somente quando estamos todos dentro do ônibus e os dois folgados adormecem em nós que o silêncio volta a reinar.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Dia 4 Casa e comida.

Um tapa. Outro tapa. Sinto a vermelhidão no rosto mas não consigo me obrigar a responder a ela. Outro. E então um chamado.Ouço meu nome repetidas vezes. Tantas vezes que começa a me irritar, eu só quero descansar, por que continuam me chamando?
Abro os olhos irritada, mas o que eu vejo dissipa qualquer raiva que eu tenho. Olhos azuis me encaram. Olhos que eu reconheço em qualquer lugar. 
"O que houve?" - estou em uma cama. Minha visão ainda está turva mas eu tenho certeza que esse aqui não é o ferro-velho. O lençol sem duvida não cheira a graxa.
"Eu que te pergunto o que houve, primeiro você não volta para casa, depois falta seu turno e agora todos esses machucados. Quando foi que você se tornou tão irresponsável?" -Tento me concentrar nele. Dizem que se você manter seus olhos em um ponto fixo, as chances da tonteira melhorar são maiores. Não sei do  que ele está reclamando. Não é nem como se ele estivesse em um bom estado também. Parece que não dorme há dias e há fuligem cobrindo seu rosto e sinceramente se eu tivesse que chutar nesse momento eu diria que ele tem quase trinta anos, o que eu sei bem que não é a realidade. 
"Água."
"Que?"
"Você tem água, aí com você. Comida, ração, qualquer coisa" É engraçado vê-lo se atrapalhar todo buscando o cantil na mochila. Não reclamando, eu preciso dessa água. Urgentemente. E não vou mentir, minha boca saliva só de ver a barra proteica que ele estende. Ninguém precisa saber disso, considerando a frequência com que eu reclamo dessas coisas.
"Bebe e come isso.. Temos que ir pra casa logo e você me deve explicações ainda. " A vontade de dar explicações é nula. Bebo quase toda a água do cantil antes de abrir a barrinha. 
"Esses trecos são restos amassados,você sabe disso não? Restos de comida dos outros."
"Não come então."
Eu como. O que não muda o fato de quão nojento é o que eles nos dão. As sobras dos soldados .

"Está quase de noite. Consegue andar ou a princesa precisa ser carregada?"
Ele fala isso, mas a expressão dele é preocupada. As sombrancelhas franzidas e os pequenos riscos ao lado dos olhos azuis mostram isso. Gary nunca foi muito bom em expressar as coisas com palavras então ele devia ser grato por suas expressões sempre denunciarem tudo. Claro que ao invés de ser grato ele odeia quando a gente diz isso a ele.
A caminhada é lenta e dolorosa. Odeio quando tenho que fazer as coisas devagar mas cada vez que tento me apressar a dor manda calafrios nas minhas costas. No final da rua principal  viramos a direita e ali está, o lugar que eu chamo de casa. Ou pelo menos tenho chamado nos últimos sete anos.
A casa tem uns quarenta anos de idade, o pai do velho que construiu. Ele queria poder ficar perto dos filhos após a esposa falecer então tinha desistido do trabalho na cidade para tentar fazer algo em casa, o que resultou no quintal gigantesco ser transformado em uma garagem.
O velho mostra nas fotos antigas como era, tinha uma parte separada para consertos leves, logo na frente. Um galpão de restauração e o resto ele guardava os carros que ele achava que ainda podiam ser utilizados para alguma coisa. Agora os carros se encontram empilhados ao redor da cerca, delimitando o terreno. A frente da casa está sem pintura e a varanda tem piso faltando em diversos pontos. Entretanto as paredes são firmes, as portas e janelas são reforçadas e o teto não tem vazamento e no fundo sabemos que devemos ser gratos por isso.
Gary  bate na porta e fica esperando eu me juntar a ele na varanda. Eu só quero tomar um banho e colocar logo curativos nessa perna, ficar mancando não é exatamente opção. A porta se abre e dois pares de olhos castanhos nos observam desconfiados.
-Gabriel, Raphael. Vocês dois podem nos dar licença? - Gary e o velho são os únicos que conseguem ser duros com os dois. É impossível para mim quando eles fazem essas expressões adoráveis.
"Não sei, você acha que são eles mesmos?"
"Acho que deviamos conferir."
"Com certeza deviamos. Mas, como?" - Raphael dizia quando Gary resolve empurrar a porta de uma vez por todas.
"Qual o problema de vocês dois, não vê que ela tá machucada?"- ele diz enquanto me direciono ao sofá.
E pronto, agora eu tenho dois pequenos ao meu redor querendo examinar meu machucado. Raphael já está perguntando como foi a dor, se eu vi cadáveres distorcidos, sério, que tipo de pessoa ele está se tornando? Gabriel não, ele se senta automaticamente ao meu lado no sofá e fica me encarando como se de alguma forma fosse resolver tudo, mas se recusa a olhar o machucado. Encosto a calça ensanguentada nele só pela diversão em vê-lo sair correndo.
"Você devia dar exemplo, não piorar a situação."
"E você não tem que ser o pai de todo mundo, sabia?"
Há alguns sacos de alimentos espalhados pela sala. Aparentemente as vendas de ontem foram boas, o que significa uma semana sem grandes preocupações. Não há nada demais na sala, nada restou da antiga decoração praticamente, tudo vendido quando a crise começou, só o que foi deixado foi uma foto do velho com seu irmão e uma do casamentos dos pais deles. Fora isso só o sofá , velho, mas ainda confortável. A estante com seus parcos livros que eu e Gary construímos uns anos atrás e sempre achávamos que não ia aguentar nenhum peso mas que ainda está aqui. A mesa de centro inventada a partir de um caixote e que basicamente serve para apoiar copos e é isso.
O velho ensinou a gente a não deixar nada de valor no primeiro andar, só o que for comida e mesmo assim os embutidos estão guardados num quarto que não é utilizado no segundo andar. A porta da cozinha é reforçada mas não é nada em comparação a porta que dá para escada. E a porta no topo da escada.
Me levanto também. Já deu para notar que o velho ainda não chegou e eu realmente preciso limpar esses ferimentos antes de poder falar com ele. A casa foi feita para 6 pessoas. Mas, tem apenas 2 banheiros, ah, e algo que você poderia chamar de banheiro do lado de fora.
Subo as escadas ainda com Raphael me observando. Não é como se ele tivesse algo mais interessante para fazer então não posso realmente culpa-lo, pelo menos ele abre as duas portas para mim sem nem eu pedir.
O segundo andar em nada lembra a deprimente sala. O longo corredor foi pintado de vermelho há poucos meses atrás, a escolha da cor foi do Gabriel, obvio. E apesar de ser horrendamente chamativo, me dá uma sensação de dinheiro. Provavelmente é só porque é tão novo e bem pintado. Há alguns quadros aqui também, no geral dos desenhos feitos pelos gêmeos que a gente simplesmente pendura na parede ou até fotos nossas, dessa família desajustada.
A porta do banheiro é a única que fecha com tranca. Rapha me acompanha até a frente dela e segura-a para mim enquanto entro. É engraçado contrastar a figura pequena, descalça, a camisa larga e os cabelos aloirados tão bagunçados com o rosto tão determinado e responsável. "Grita se precisar de ajuda" ele diz antes de sair todo sério e eu sei que ele vai verdadeiramente ficar prestando atenção porque é isso que Raphael faz.
Não tenho necessidade de fechar o trinco, esforço inútil. No momento tenho que me concentrar no fato que o jeans se grudou nos cortes. E não levemente. O suficiente para eu considerar cortar todo o jeans e tentar lavar com essa parte presa mesmo. Não vou fazer isso, eu sei que no fundo vou ter que descolar de um jeito ou de outro.
Afasto as cortinas e ligo o chuveiro. Tenho a impressão que pelo menos debaixo d'agua a dor vai ser mais tolerável. Eu espero sinceramente que eu esteja certa. Já vi isso acontecer antes e o jeito como sangra não é nem um pouco bonito.
Começo a tirar a calça devagar até que decido ser um pouco mais corajosa e agir como se fosse um band-aid. Dor. Dor o suficiente para eu não conseguir esconder um gemido. A porta é aberta rapidamente e os pequenos da casa me olham desesperados até que eu tente tacar algo neles. O mais perto que encontrei foi o sabonete e não posso reclamar, a porta se fecha logo em seguida, mas agora preciso pegar o sabonete.
Daqui a pouco, por enquanto é melhor deixar a água simplesmente passar no machucado.

domingo, 29 de setembro de 2013

Dia 3 Chegando

Minha cabeça parece que vai explodir. Isso é uma certeza. Os sons parecem distantes e eu tenho certeza que o chão não está onde deveria estar e que isso são gritos. O líquido quente que está escorrendo pelo meu rosto é sangue. Não sei se é meu. Não sei nem se consigo levantar.
Merda. De repente todos os sentidos estão acordados. Preciso sair daqui. Rápido. O ônibus está virado. Os passageiros estão nos mais diversos estados e céus, o quanto eu daria para não ter mais que ver gente morta. O quanto eu daria para passar uma semana sem gente morrer na minha frente.
A tonteira é imediata. Ninguém mandou eu ficar de pé tão subitamente. O sangue é do corte da minha cabeça mesmo, tenho certeza que tem algo errado por eu achar isso uma boa notícia mas com a quantidade de drogas que as pessoas usam hoje em dia para se manterem sobrevivendo é melhor evitar esses contatos diretos. Intimidade demais.
A perna esquerda dói. Muito. Não o suficiente para eu não conseguir arrastá-la. Me suspendo pela janela já quebrada, uma senhora no ônibus começa a gritar por ajuda. Seu braço parece preso nas engrenagens e eu sei que não tem jeito de tira-la dali sem matá-la de tanto sangramento. Um dos  sujeitos que estava dormindo nos bancos se aproxima dela. A expressão no seu rosto me diz que está na hora de ir embora.
Estar do lado de fora abafa menos os gritos dela do que eu imaginava. A poeira está absurdamente alta e metade dos prédios não existem mais. Uma explosão. Ou implosão mal feita. Se foi programada em breve uma patrulha estará conferindo. Se não foi podemos contar com uma duzia de pessoas vindo conferir.
Regra de ouro. Sempre é melhor sair da estrada principal. Regra de prata, ao sair da estrada principal tome cuidado com as pessoas que também conhecem a regra de ouro. Me arrasto entre 2 prédios , um deles está porcamente de pé ainda, o pórtico totalmente destruído. O outro, bem, parece normal tirando o fato que aparentemente o último andar se encontra no chão. Caminho entre os destroços, o avanço é lento, há alguns outros gritos do ônibus agora o que significa que preciso chegar até a rua paralela.
Faço o caminho sem parar para repousar. A entrada do distrito 3 é a menos de sete minutos. Pessoas se aproximam, elas passam por mim sem olhar duas vezes. Chego a rua lateral e preciso de pelo menos dois minutos no umbral de um prédio para me recuperar.
A rua está aparentemente vazia. Sigo por ela. 
Em pouco tempo já posso ver a placa verde desgastada feita em tempos melhores onde esse era um belo distrito residencial. Um dos mais caros na realidade. Ainda dá para ver os restos da cancela e das guaritas de segurança. Condomínios fechados de casas.
Minha cabeça roda e eu tento me concentrar nos meus passos o que esta se tornando bem desagradável considerando o formato que a minha perna está fazendo. 
Cama. Tudo que eu quero. Não vou chegar até o ferro velho. Estou perdendo sangue demais para isso e sei que a trilha que estou deixando não é a mais bonita de todas . Talvez eu esteja exagerando quanto a quantidade de sangue. Talvez até provável, mas não consigo me concentrar.   Faço até o final da primeira fileira de apartamentos,não  consigo nem lembrar mais que casa que é segura. As chaves estão no bolso do meu casaco, consigo senti-las. Acho que era a terceira casa da esquerda.  Ou talvez da direita ou... Não consigo lembrar.
Minhas pernas já não me mantêm. Só preciso sentar um pouco aqui na calçada, só um pouco....



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Dia 2 Caminho.

Acordar suada após um pesadelo já é rotina. Os sonhos são constantes e toda vez que não deito de exaustão eles vêem. São mais lembranças do que sonhos na realidade e quando acordo só posso desejar que durante o dia de hoje não ganhe nenhuma nova memória para abastecer esses sonhos.
A alcova é bem diferente dos outros esconderijos. Me lembra mais um lugar seguro que todos os outros. No inicio eu queria passar todo o tempo aqui, para aproveitar antes que algum desastre ocorresse e eu deixasse de existir. Com o passar das semanas, meses, eu não acho mais que irei morrer a cada esquina. Então deixo para vir em emergências apenas. Mais provável do que eu morrer é alguém me tirar esse lugar se me virem entrando sempre.
Outra coisa sobre a alcova é que ela não recebe luz matinal. Nenhuma. Apenas depois de meio dia o sol começa a entrar o que torna impossível olhar a vista de tarde. E é esse sol que me acorda juntamente com meu estômago reclamando.
Chuto uma hora da tarde agora, quase 16 horas desde a última refeição. Coloco a cama no lugar de antes, levanto os objetos que deixei cair enquanto entrava de madrugada e estou pronta para sair. Abrir os trincos,  a porta, fechar a porta, fechar os cadeados. Rotina de segurança.
Saio do beco com cuidado, a rua já está lotada de pessoas, em busca de algo o que comer, de algum serviço que possam fazer em troca de abrigo ou alimentação. E existem os grupos nos cantos querendo pegar o que as outras pessoas conseguirem.
Logo quando tudo isso começou as pessoas buscaram juntar-se em grupos, em geral com sua própria família. O governo diz que se uma pessoa a cada 4 trabalhar diariamente não vai faltar nada. Mentira. Os vizinhos do meu tio moram em um grupo de cinco, os três adultos trabalham todo dia e as duas crianças parte do dia. É isso ou ser vendida e bem, ninguém quer ser vendido.
Mal saio na principal e o cheiro me enoja. A avenida está infestada de pessoas nos seus mais diferentes estados. Corpos jogados nus no chão, mortos por seus parcos pertences. Crianças tentando saquear o pouco que restou. Casas abertas, vidros quebrados. Isso é o que o apagão faz. Você não precisa ter medo que alguém te veja, ninguém vai pegar seu número de identificação, ninguém vai saber que foi sua culpa. você vai poder alimentar sua família. Agasalhar-la considerando que o inverno está na esquina. Vai poder comprar remédios. Uma chance muito boa para deixar passar e assim a oportunidade faz o ladrão.
Eu prefiro ficar na minha. Lá no inicio, eu ainda tentava pegar alguma coisa, mas fui castigada o suficiente para preferir me esconder. Quanto menos atenção melhor.
Coloco o capuz e caminho até o ponto de ônibus,o que na realidade é só uma plaquinha. O tempo de espera pode ser qualquer coisa entre um minuto e três horas e por mais que nada seria tão agradável (exceto por comida) do que colocar os fones de ouvido, preciso ficar atenta.
A caminhada até  o ferro velho é de cinquenta minutos. A maior parte do caminho é pelo distrito 3 o que significa que já roubaram tudo o que podiam de lá há muito tempo então dá para caminhar mais tranquilamente. O que é bem diferente daqui onde todos te encaram tentando calcular com os olhos quanto você vale.
O ônibus chega antes que alguem decida que eu sou um bom alvo. Lembro subitamente porque qualquer caminhada é melhor do que o transporte público. Nem falo só sobre o fato de quase não haver cadeiras mais, da sujeira e das pessoas dormindo. Não dá para escapar no ônibus.
As janelas podem estar abertas, dando a ilusão de liberdade. Só que a verdade é que eu estou presa aqui pelo menos até a próxima parada. 7 minutos até ela alias. São 19 minutos até a entrada 1 do distrito 3. Tento me concentrar nisso mais do que tudo.
Lily vai ficar tão feliz quando souber o que eu estou levando. Ela e Jos já devem estar voltando das suas obrigações por essa hora e com sorte o velho guardou um pouco de comida para mim. Ele vai ficar chateado por eu não ter ido ao campo. Hoje quero fingir que não preciso ir lá, que não preciso nunca mais ir. Que eu posso simplesmente voltar para o ferro velho, concertar algumas coisas, ver tv - a quanto tempo eu não vejo tv?- beber algo gelado e deitar ao relento. Fingir que amanhã não haverão consequências para esse dia de folga.
Ele não vai falar nada quando me ver chegar assim, ele nunca fala. Algo como você já está encrencada mesmo, que pelo menos você fique feliz até tudo cair na sua cabeça. Acho gentil da parte dele, quase acredito que ele entenda. O que só faz com que eu tenha vontade de chegar mais rápido. O bom de andar é que você faz seu pas-